textos sobre artistas e artes visuais publicados em jornais, revistas, livros e catálogos
segunda-feira, julho 07, 2014
pedro osmar: briga de foice no escuro
Conheci sua obra visual antes de ouvir seu som e ter contato com seu texto anarquista. Só depois de conhecê-lo pessoalmente, em 1989, numa ideia (dele) de transformar alguns desenhos e colagens em gravuras em serigrafia, fui, aos poucos, montando esse verdadeiro puzzle multimídia que é Pedro Osmar, também autor de canções como “Beijo, morte, beijo” e “Baile de máscaras”, e dos inolvidáveis CD’s “Signagem” e “Viola Caipira”. Então, quanto mais conhecia a obra-homem (homem-obra?), mais me encantava com a quantidade voraz e o experimentalismo de sua obra gráfica. Adorei os estudos geométricos (talvez futuras logomarcas e símbolos para empresas e produtos) enquanto ele sugeria interferir o quanto quisesse na obra que eu iria imprimir (bem provável que viesse da música essa sua natureza de dividir com parceiros a produção e a criação). E tudo isso aconteceu na mesma tarde que ele me apresentou a Ravi Shankar e Meredith Monk...
A partir daí, me tornei, voluntariamente, uma espécie de curador de sua produção gráfica. Juntos fizemos planos e ideias de produzir zil coisas: álbuns de gravura em serigrafia, exposição do Clube da Gravura da Paraíba no Parque Lage, no Rio de Janeiro, livro de cordel (Cartas de amor de Isidora para João de Pantanha), instalações (Estupro da Mata Atlântica e Chacal Presidente, no Espaço Cultural José Lins do Rego), cartazes para shows, mail art, camisetas anarco-políticas, entre outras ações. Um trabalho exemplar foi as mil capas realizadas para aquele histórico (e único) long playing do Jaguaribe Carne que inaugurou uma ideia de devolver a unicidade à produção em série. Cada cópia do disco ganhou uma capa única, especial. Pedro Osmar trabalhou feito bicho e chamou meio mundo, entre artistas plásticos, crianças, amigos e vizinhos, para interferir nas capas. São obras que merecem ir para a parede de qualquer galeria (enquanto o disco toca na vitrola).
Pedro esteve me apresentando, recentemente, muitos desenhos que são apenas rabiscos (tinta e caneta nanquin) desenvolvidos durante sua estadia em São Paulo, e que se arrasta há alguns anos. Mas, poderiam ser também “páginas de um diário de bicicleta” preparadas como um belo poema em preto e branco. E é graças a sua inquietação que temos o prazer de tê-lo como poeta e artista gráfico da melhor qualidade. Pouca gente sabe que ele é o autor de logomarcas como a do Manaíra Shopping, da Indústria Cerâmica Elizabeth (1ª versão) e do CECAD. Ele não para. Transformamos alguns destes desenhos “paulistanos” em um álbum de serigrafias onde usei apenas duas cores: preto e prata (e onde fui o impressor). Pode parecer bobagem, mas, vez ou outra estamos a falar de nossas negritudes e do vil metal que também nos alimenta, daí o título do álbum ser “Preto e prata”.
A verdade é que Pedro Osmar atuou em várias lutas políticas e brigadas populares; ouviu muita música de carnaval cantada por sua mãe; leu muito jornal de enrolar peixe (do dia anterior); conheceu Aloísio Magalhães e Walter Smetak duma vez só; participou de várias greves de fome; frequentou aulas de ballet e templos religiosos de outras cores; bebeu muito guaraná Sanhauá, fez música para cego ver e continua gargarejando Água Rabelo. No meio, é mais conhecido como “guerrilheiro” cultural, multimídia, experimentalista, guru do Jaguaribismo, pau pra toda obra. Daí, sua vida (ou sua arte?) parecer mais uma briga de foice. E no escuro!
segunda-feira, maio 19, 2014
grandes formatos na REDE
sexta-feira, abril 25, 2014
conversa com thaïs gualberto (em exposição na aliança francesa joão pessoa)
quinta-feira, janeiro 30, 2014
a arte surge assim, na rede (arte contemporânea)
segunda-feira, janeiro 06, 2014
haja fôlego!, de chico ferreira
quarta-feira, novembro 13, 2013
único, autêntico, sofisticado. tudo junto, de alberto lacet
Aliás, como muitos outros já afirmaram o mesmo com propriedade, vou me policiar para não gastar palavras com elogios baratos ou palavras ao vento...
Eu lembro bem daqueles nossos encontros iniciais no ateliê de serigrafia do mestre Alcides Ferreira, ali na ruazinha do Riachuelo, entre a B. Roahn e a Maciel Pinheiro. Era início da década de 80 e tempos de boa conversa e deliciosas discussões sobre arte, história da arte e também histórias de trancoso, claro. Desde então passei a reverenciar sua arte (e seu largo conhecimento sobre arte e técnica, diga-se), seu método refinado. Virei fã incondicional.
O tempo (ah, o tempo...) cuidou de fazê-lo ainda mais refinado. Como é do estilo dos autênticos, Alberto Lacet obra lentamente a sua cria, como que lambendo, limpando, tirando os excessos (e há excessos em Lacet?). E, talvez por isso mesmo todos ficamos ansiosos por ver uma mostra individual sua. Confesso até, daria tudo para assistir ao embate de Lacet com uma tela em branco... Seria um embate digno de deuses, não?
E como Lacet não parece ser deste mundo dos “simples mortais”, cito o dilema de Sísifo que, por desafiar os deuses, foi condenado a carregar uma pedra até o topo de uma montanha. Quando já estava próximo do objetivo, a pedra rolava montanha abaixo e ele começava tudo de novo. E assim tinha de cumprir, eternamente, essa tarefa sem sentido... Ora, isto nada tem a ver com Lacet (exceto a labuta interminável), mas serve como link para o “absurdo” da arte, do gesto criador, que outro Alberto, o Camus, desenvolveu num ensaio, O mito de Sísifo, em que desanda a discutir a “criação do absurdo” e onde afirma, categórico: “Se o mundo fosse claro, a arte não existiria.” E aí, suas palavras-chave “revolta, liberdade, paixão” para a aceitação do absurdo e/ou a compreensão da vida são aquilo que me faz lembrar a obra (e a função) de Alberto Lacet neste momento.
sexta-feira, março 29, 2013
memórias do olhar, de raul córdula
quinta-feira, dezembro 20, 2012
josé lyra - o pintor da parahyba
quinta-feira, novembro 29, 2012
em cartaz (grupo DIA em exposição na aliança francesa joão pessoa)
conversa com o grupo DIA
quinta-feira, setembro 13, 2012
um eu, outro eu. eu coletivo
conversa com cláudio foca (em exposição na aliança francesa)
terça-feira, junho 12, 2012
homem/paisagem/visagem
quarta-feira, abril 18, 2012
muito prazer! (para talita paz, em exposição na aliança francesa joão pessoa)
E isto é muito apropriado à jovem artista Talita Paz. No meu primeiro contato com ela (quando colaborou com a exposição de Daniele Calaço, na Aliança Francesa, em 2009), ainda não sabia de suas múltiplas “habilidades”: da fotografia à dança de salão (e do ventre!), da poesia ao canto coral. Até aí nada demais para alguém jovem e plena de desejos pela arte, já que, na época, ela também frequentava o curso de artes visuais da UFPB.
Mas notei, ao longo destes anos, que Talita tinha se dedicado muito mais à fotografia: comprou uma câmera profissional e passou a experimentar ensaios lúdicos e cheios de estilo (e criativos) com amigas e clientes (que se tornavam novas amigas). Veio daí meu interesse em convidá-la para o programa Jovens Talentos, da Aliança Francesa. Mas como na vida nada acontece por acaso, desisti de – como seu curador – propor um recorte de sua produção recente, quando a deixei falar do que pensava exibir... E ela não parou de falar de suas ideias, obras, planos, projetos, desejos... Mostrou desenhos, anotações e croquis... Até que me convenci de que ela deveria fazer uma “retrospectiva” de sua produção!
Então, nesse caso, eu devia deixá-la “se mostrar”, bem solta, completa, e se apresentar a todos (e a mim também) com suas propostas várias: fotografia, poesia, assemblage, desenho, instalação, dança... Na verdade, um pouco do híbridismo que já lhe marca como artista múltipla, contemporânea (e com “futuro”). Com vocês... Talita Paz!
conversa com talita paz
1. Como se deu sua ‘descoberta’ pela arte? Foi fascinação ou desígnio?
Minha mãe fazia Educação Artística na UFPB e ela sempre me levava pra assistir as aulas. Eu era a “mascote”, a cantora mirim nas aulas de música, a atriz nas aulas de teatro e a modelo das aulas de desenho. E ficava desenhando os colegas de turma da minha mãe... Sempre tive materiais artísticos em minha volta e experimentava tudo sem restrições, amava tudo aquilo e suas possibilidades criativas. Assim, além de “designada” eu era (e ainda sou/estou) fascinada por arte e todas suas vertentes (e estou imersa nela até hoje).
2. De que forma vc chegou ao curso de artes da UFPB?
Na verdade eu sempre quis fazer fotografia. Ganhei minha primeira câmera com sapata e flash aos sete anos e ainda a tenho (cor: amarelo-limão... rsrs). Mas minha família não tinha condições de bancar meu curso, e o mesmo aconteceu com Arte e Mídia
3. Como você enxerga hoje o hibridismo da/na arte contemporânea?
Acho fundamental. Pois o leque de possibilidades aumenta dando maior poder criativo e liberdade de expressão, ampliando os horizontes, intrigando, desvendando, instigando, tocando o expectador, aguçando os sentidos, pondo-os para parar, observar, refletir, discutir, destrinchar e muitas vezes montar o “quebra-cabeça” que é a vida.
4. Como você define sua atuação nas artes visuais?
Ativa, produtiva, contínua, perspicaz e silenciosa... Pois sempre foi difícil mostrar meu trabalho. Todas as minhas produções são arquivadas, guardadas e poucas pessoas as conhecem, não mostro para todo mundo, apenas para pessoas especiais para mim (algo meio que um ritual de intimidade e confiança). Mas hoje penso diferente, já estou mais madura e confiante, sem receios ou medos de me expor, me revelar, de compartilhar pensamentos, sentimentos, momentos. Hoje me vejo como um livro aberto... Lê quem quer! E agora estou tendo a oportunidade de abrir este livro e compartilhar um pouco do que sou e por onde passei, quem passou por mim e me ajudou a ser de alguma forma a pessoa, artista, dançarina e fotografa que me tornei.
5. Você acha que há espaço/lugar/apoio para os jovens artistas?
Sim, mas poucos. Poucos são os lugares que realmente investem no novo, nos jovens artistas. E, na maioria, quando investem não têm o cuidado de oferecer boa “apresentação” das obras. Falo isso para os “novos artistas”, pois para os já conhecidos a história e as “pompas” são outras... Quem é do meio sabe como funciona, infelizmente. Enfim, é lógico que há exceções, mas são poucas. E isto [investir nos novos], é de extrema importância para todos nós “novos”, pois só assim teremos oportunidade de compartilhar nosso talento, habilidade, criatividade, experimentações. Isso é que é legal: novas propostas, novas possibilidades.
6. Que artistas ou movimentos te dão mais influências ou te agradam mais?
Tive bastante influência de grandes amigos artistas, entre eles: Amenemar, Flávio Tavares, Eliéser Filho, Miguel dos Santos, Cristina Strapação, Florismar Gomes (Flô), Silvino Espínola, Jacqueline Lima, Maximiano Fernandes, Sheilla Fadja, Danielle Calaço, Roncalli Dantas, Américo, Marta Penner, Dyógenes Chaves, Shiko, Eleonora Montenegro, Wilson Figueiredo, Paulo Aurélio, Cácio Murilo, Júlio Fontes, Almir Xavier, Ricardo Peixoto, Edu Costa, David Ribeiro, Roberto Mendonza, Leonardo Aires, Eduardo Vieira, Eugra Souto, Eduardo Moura, entre muitos outros... Quanto a meus estilos preferidos, no que diz respeito a desenho e fotografia, me envolvo muito com pessoas, sua simplicidade, sentimentos, sensualidade e o erotismo, a estima por si mesmo, os conflitos pessoais, o romance e a mistura de tudo, a contemporaneidade.
segunda-feira, março 26, 2012
a serigrafia artística na paraíba
Na Paraíba, como em outros lugares, a técnica da serigrafia (ou silkscreen) surgiu, inicialmente na produção de flâmulas e decalques plásticos destinados à promoção de eventos, e na impressão de rótulos e caixas de papelão para embalagens de produtos (sabão, vela, cigarro, fósforo, sabonete etc.), antes, só possível por meio da impressão em tipografia e litografia.
Já a utilização pioneira da serigrafia nas artes visuais paraibanas, a partir dos anos 1970, é creditada ao serígrafo, Alcides Ferreira, e ao artista plástico, Arthur Cantalice, e este, à época, aprendeu rudimentos da técnica em viagens aos Estados Unidos. O processo então empregado era o de filme de recorte: uma película aplicada sobre uma folha de plástico, com detalhes do desenho cuidadosamente recortados, a partir do que se obtinha uma imagem vazada, ou seja, um “molde vazado” (ou estêncil). Hoje em dia, o processo denominado photoscreen – que utiliza recursos da fotografia – é o mais difundido, comercial e industrialmente.
A partir do curso ministrado pelos serígrafos, Laércio Pereira (SP) e Alcides Ferreira (PB), no Núcleo de Arte Contemporânea (João Pessoa, 1979), quando da exposição do artista, Cláudio Tozzi, e no V Festival de Arte (Areia, 1979), os artistas locais passaram a fazer uso da técnica de photoscreen, com objetivos de multiplicar e dar visibilidade à sua produção gráfica. As gravuras eram editadas no ateliê de Alcides Ferreira – considerado um dos melhores do Nordeste –, de quem o artista e serígrafo, Dyógenes Chaves, foi seu principal assistente entre 1982-86. Das obras então produzidas, destaque para os álbuns de serigrafia de artistas como Guy Joseph, Raul Córdula, Flávio Tavares, Fred Svendsen e Chico Dantas, dentre outros.
Muito antes disso, nos anos 60, o artista norte-americano, Andy Warhol, já se utilizava da serigrafia – técnica de impressão gráfica, até então apenas utilizada na produção industrial, têxtil e publicitária –, como meio principal para a realização de suas obras, no auge do movimento Pop Art.
Inventada pelos japoneses há dois mil anos, a serigrafia deriva da técnica do estêncil, muito empregada na estampagem artesanal de tecidos. Esta técnica − ainda hoje usada na marcação de embalagens − consiste em recortar, de uma folha de papel, a imagem ali existente, que resulta vazada. Em seguida, passou-se a usar um tecido de trama e fios finos e regulares, tensionado em uma moldura de madeira. Neste caso, obtém-se a impressão com a utilização de um rodo de borracha, para “puxar” a tinta ao longo da superfície da matriz (moldura, tecido e estêncil), colocada sobre o suporte (papel) em que se quer imprimir a imagem.
Em resumo: a diferença entre as diversas técnicas de gravura e a serigrafia está na forma de impressão, ou seja, na serigrafia a imagem é obtida pela ação do rodo, que viabiliza a passagem da tinta através do tecido da matriz, nas demais técnicas a imagem é obtida por intermédio direto da matriz, que é entintada para posterior transferência ao papel (tal qual um carimbo).
Hoje em dia, a serigrafia é amplamente utilizada por artistas plásticos na “multiplicação” de suas obras – quase sempre destinadas à decoração de interior em hotéis, hospitais etc., que demandam várias cópias da mesma matriz –, sem perder sua originalidade (a gravura, apesar de reproduzida em série, mantém-se original, já que é assinada e numerada, uma a uma, pelo autor) e a um custo mais acessível ao mercado de arte. O único senão é o fato da gravura em serigrafia ser totalmente manipulada por um técnico impressor e não pelo próprio artista – como se dá nas outras técnicas –, o que resulta em menor envolvimento do artista-autor com sua criação.
Entre 2010 e
sexta-feira, março 02, 2012
para roncalli dantas (em exposição na aliança francesa joão pessoa)
1. O mundo dá voltas. A cada volta tantos encontros (e desencontros). Até as pedras se encontram. A isso dá-se o nome de “entre”.
2. E é aí – na ida, na volta, no “entre” – que o artista, Roncalli Dantas, recolhe as mais recônditas imagens-palavras para produzir sua obra-vida. E, a cada volta que o mundo dá ele divide aquilo que recolhe com quem encontra: parceiros, amigos e anônimos. A isso dá-se o nome de “generosidade”.
Pudera. Colaborar, dividir, somar, apropriar, tomar emprestado, dar, doar, receber não são para qualquer um. Mas para Roncalli, são sim.
3. Sua obra, multifacetada e híbrida, verbo ou figura, velha ou nova, é o melhor exemplo de sua geração. A isso dá-se o nome de “o nosso mais completo artista contemporâneo”.
Pudera. Fotografia, desenho, livro de artista, poema, vídeo, objeto, não são para qualquer um. Mas para Roncalli, são sim.
4. Se pudéssemos nomeá-lo (como artista ou não), ele seria a pedra que gostaríamos de encontrar no meio do caminho. A cada volta que o mundo dá.
conversa com roncalli dantas
1. Como se deu sua ‘descoberta’ pela arte? Foi fascinação ou desígnio?
Nos últimos anos da década de 90 comecei a acompanhar o pessoal da Agência Ensaio [de fotografia], participando de exposições em varais nas ruas, de workshops nas feiras de arte e no SESC, que ocorriam anualmente
2. De que forma você chegou ao curso de artes da UFPB?
Eu “cheguei” no curso de artes em agosto de 2005 por causa dos artistas, Cristina Carvalho e Adriano Barreto. Eles foram meus primeiros colegas de um “curso de artes” que jamais fiz formalmente. Foi um curso de segunda mão, pois eles assistiam as aulas e depois eu captava resquícios dos debates, das sobras das discussões mais importantes para eles. Eu acabei criando imagens dos professores de arte da UFPB – Silvino Espínola, Chico Pereira, Ricardo Dubinskas, Sicília Calado, Rosilda Sá, Erinaldo Alves – a partir das conversas com os meninos, que se misturavam com Duchamp, Polock, Man Ray, Einsenstein. Depois, começando a expor com Cris e Adriano, a professora Rosilda me chamou para falar sobre um trabalho de livro de artista que eu tinha realizado através de um curso no Casarão 34, que na época tinha Maria Botelho, Dyógenes Chaves e Rodolfo Athayde na coordenação. No final de 2006 fui para São Paulo fotografar as obras da bienal e das galerias com o objetivo de abrir um grupo de discussão no Núcleo de Arte Contemporânea, num projeto de pesquisa encabeçado pela professora, Paula Ziegler, que me apresentou à coordenadora do NAC, a professora Marta Penner. No ano seguinte, posei como modelo vivo para uma turma de desenho de Marta e logo após, acabei colaborando com alguns trabalhos realizados por ela e participando de grupos de estudos e grupos de pesquisa na área de ensino de artes com os professores Sicília Calado e Erinaldo. Portanto, me considero também cria do cenário artístico fomentado pela UFPB a partir da chegada dos professores Marta, Sicília, Marco Aurélio e Dubinskas, em 2006.
3. Como você enxerga hoje o hibridismo da/na arte contemporânea?
Atualmente existe uma valorização de questões sobre desterritorialização, entre-lugar, hibridismo, diálogos culturais, rizomas, fragmentação, fluidez, diluição etc. Todas estas questões filosóficas são importantes, mas quando temos como parâmetro o Brasil, estas questões ganham outra dimensão, pois nós somos “essencialmente” seres híbridos, formados pelo diálogo e violência entre diferentes raças. Se existir, algum dia, algo para unir socialmente o Brasil, isto será a nossa impureza cultural. Então, agir de maneira híbrida, não é uma questão de opção estética, de tendência, de momento histórico, mas é uma questão de referencial, que nós carregamos internamente, que foi gerado em nossa formação cultural. Então o purismo artístico, tais como o sujeito essencialmente “pintor”, o essencialmente “fotógrafo”, o “cineasta”, o “escultor”, por mais importantes que sejam em suas pesquisas criativas, existirá sempre em cada um deles uma persona deslocada, inquieta e com impulsos para perverter o seu oficio, sua arte, o suporte e a própria pesquisa iniciada. O caos, a fluidez, a desorganização, a fragmentação tem pontos positivos e negativos, portanto, não nos faz melhores, mas nos proporciona uma identidade, que é frágil, escorregadiça e muitas vezes, sabotadora de nós mesmos.
4. Como você define sua atuação nas artes visuais?
5. Você acha que há espaço/lugar/apoio para os jovens artistas?
João Pessoa possui divisões sociais estanques desde a época em que a população se deslocou do centro para a praia. A população se dividiu de uma maneira que blocos de pessoas não interagem em nosso meio cultural, impedindo interpenetrações, hibridismos sociais que gerou um congelamento da cultura popular (estamos parado no armorialismo de Ariano, via Recife) e também das artes de pesquisa (ficamos na semana de arte de 22). A consequência disso é que a arte contemporânea ficou em um lugar não demarcado socialmente. Não tem visibilidade. O público é o mesmo já há algum tempo e não existe política pública que faça mudar a falta de interesse pela produção local, como museus de arte contemporânea ou galerias que possam dar conta desta produção. Infelizmente, são os próprios artistas locais os “zeladores”, detentores históricos das obras de artes visuais dos anos 1990 e 2000. Pois como se sabe, nos anos 1980
6. Que artistas ou movimentos te dão mais influências ou te agradam mais?
Como venho das Letras, sou muito influenciado pelos poetas e escritores que trabalham a materialidade visual do texto escrito. Pierre Verger, Caribé, Arnaldo Antunes, Augusto de Campos, Décio Pignatari, J. Borges. Também me envolvi com pensadores da cultura brasileira como Gilberto Freire, Darcy Ribeiro e Sérgio Buarque de Holanda graças à minha orientadora, Beliza Áurea. Contudo, a obra de cabeceira é o Cerco da memória do poeta Sérgio de Castro Pinto. “Vira e mexe” estou relendo esta coletânea. Nas artes visuais gosto de Cildo Meirelles, dos construtivistas russos, do dadaísmo e da arte conceitual dos anos sessenta e setenta, dos happenings, da Land Art, do Fluxus etc. Estou começando a me interessar pela Pop Art americana, muito embora esteja certo que o Brasil produziu coisas melhores no mesmo período. Na Paraíba, eu gosto de Gonper, Marta Penner, Rufino, Íris Helena, Américo, Manoel Fernandes, Adriano Barreto, Cristina Carvalho, Dani Calaço, Danielle Travassos, Prince, Verdeee, Chico Dantas, Dyógenes, Vagner e Serge Huot.
sábado, janeiro 14, 2012
(in)feliz ano novo?
Há 30 anos, na minha adolescência, o carnaval era tempo de sair da cidade em busca de aventuras... Praias de Jacumã, Baía da Traição, Canoa Quebrada e até Olinda e Salvador eram as melhores alternativas para jovens como eu que ainda sonhavam com “sexo, drogas e rock’n’roll” e que não tinham o que fazer
Foi assim, com essa febre de sair da cidade na época do carnaval, que nasceu o Bloco Muriçocas do Miramar e, junto com ele, o projeto Folia de Rua. Daí inventou-se o carnaval do “antes do carnaval”. E, então, todo mundo continuou “fugindo” do carnaval de João Pessoa, embora tivesse lá seu charme poder brincar um carnaval diferente, mais popular, indo “atrás do trio elétrico”, literalmente. Destaque para o fato de que, nessa época, as pessoas daqui (e de Campina Grande, especialmente) costumavam “veranear” (férias de verão) alugando casas na faixa que vai do Mar dos Macacos (hoje, o bairro de Intermares) até Praia Formosa,
Tempos depois, um famigerado prefeito de João Pessoa inventou de trazer o Axé Music – que explodia no país inteiro – para “alegrar” os jovens (eu, já nem tanto assim) em eventos carnavalescos que tinham o prefixo “mica” (que tem origem na festa francesa, mi-carême, ou seja, que ocorre no meio da quaresma). Espalhou-se no Brasil, a partir de Feira de Santana e de outras cidades nordestinas, esse tipo de carnaval “fora de época”: Micareta, Micarande, Micaroa, Carnatal, Fortal... Isso só fez encher de grana os protagonistas desse tipo de música baiana (há outros baianos, ainda bem) e as empresas de cerveja (então, seus principais patrocinadores).
Outros tempos depois, outro prefeito, muito mais envolvido com os movimentos populares e artísticos, resolve abolir com essa baboseira das “micas”. Não só investiu na música local como também passou a trazer para a cidade nomes de “peso” da boa música brasileira. Ou seja, no verão e no carnaval teríamos, finalmente, motivos para não deixar a cidade. Todos ficamos deslumbrados. Além do nosso bom pré-carnaval – seguindo as Muriçocas, as Virgens de Tambaú e os Cafuçus, especialmente – poderíamos curtir os numerosos festivais de verão: Centro em Cena, Estação Nordeste, Estação do Som, Música do Mundo, Festival Canavial... E tudo já começava no Réveillon.
Não tenho dúvidas de que João Pessoa, entre as capitais nordestinas, é a que apresenta a melhor programação de música no período das férias de verão, em 2012. Somando recursos da Prefeitura e do Estado, foi investido cerca de 1 milhão de reais para pagamento de cachês, passagens, hospedagem e aluguel de palco, luz e som.
No entanto, também há divergências e discrepâncias. Vejamos algumas questões que merecem reflexão de todos (até daqueles que estão abestalhados com tanta coisa boa acontecendo na cidade).
1. Apesar do grande volume de recursos financeiros pros músicos, quem leva a maior fatia são aqueles que vem de “fora”. É uma vergonha o cachê dos grupos e artistas locais que se apresentam nas praças, principalmente;
2. Não incluíram a “prata da casa” – da música – na programação principal (nas areias de Tambaú);
3. Proporcional ao que foi investido (financeiramente também), não incluíram nenhuma “boa” programação em áreas como literatura, dança, teatro, cinema e artes visuais. Vale dizer que uma coisinha aqui e outra ali é apenas querer tampar o sol com uma peneira.
Claro que numa programação cultural de verão, mais voltada para eventos de rua, é complicado organizar atividades afeitas para locais fechados (cinema, teatro, dança e artes visuais, em especial). No entanto, falta mesmo é “cabeça pensante” no poder oficial que “crie” projetos nestas outras áreas da cultura. Por exemplo, com o mesmo investimento de trazer um Frejat ou um Antonio Nóbrega, poderíamos convidar um grande grupo de dança (ou de teatro) para várias apresentações gratuitas. Ou organizar exibições de cinema ao ar livre. Ou levar a Orquestra Sinfônica para a praia...
Na área de artes visuais também há muitas opções. Parece até que nossos dirigentes nunca ouviram falar de Street Art, de ações de arte pública com artistas realizando intervenções urbanas, mutirões de grafite, esculturas efêmeras ao ar livre, oficinas de artes para crianças (afinal, estamos de férias), concurso de escultura de areia, mostras em placas de outdoor espalhadas pela cidade... Pelo visto, aqui não falta dinheiro pra música no verão, apesar de faltar dinheiro o ano inteiro para outras categorias artísticas, inclusive para o nosso bom pré-carnaval.
Vou ficando por aqui. Daqui a pouco vou buscar minha filha que está se divertindo com as amiguinhas na Praia de Tambaú (muito diferente de Luiza, que está no Canadá, infelizmente).