segunda-feira, julho 07, 2014

pedro osmar: briga de foice no escuro

A obra de Pedro Osmar – seja musical, pictórica, política, teatral, poética, alucinatória, erótica, gráfica, visual, plástica, literária, psicoquímica ou social-dramática – não se dirige unicamente aos olhos e ouvidos do observador, mas a todos os seus sentidos. Diria até que, conservada tão fluída e natural, sua obra segue uma relação íntima entre arte e vida. Sua poética como seu discurso político não são diferentes de seu cotidiano familiar. Tampouco sua produção plástica está distante de sua “caótico-alucinante” musicalidade. Há muita correspondência entre homem e obra. Entre obra e obra. E, principalmente, entre homem e homem. Toda a obra de Pedro Osmar sempre remete à condição humana (ou à sua própria condição humana). Noutro sentido, poderia até dizer que sua obra é um eterno happening dele mesmo. Basta reler seus inúmeros “textos-manifestos” ou suas poesias eróticas; ou ainda, rever seus “projetos-maquete” para a sede do partido comunista ou suas dezenas de logomarcas institucionais. Quem o conhece sabe do seu engajamento e preocupação por questões marginais: da terra (e dos sem-terra); da ecologia; da arte popular (e de popularizar a arte); das minorias e dos organismos não governamentais...

Conheci sua obra visual antes de ouvir seu som e ter contato com seu texto anarquista. Só depois de conhecê-lo pessoalmente, em 1989, numa ideia (dele) de transformar alguns desenhos e colagens em gravuras em serigrafia, fui, aos poucos, montando esse verdadeiro puzzle multimídia que é Pedro Osmar, também autor de canções como “Beijo, morte, beijo” e “Baile de máscaras”, e dos inolvidáveis CD’s “Signagem” e “Viola Caipira”. Então, quanto mais conhecia a obra-homem (homem-obra?), mais me encantava com a quantidade voraz e o experimentalismo de sua obra gráfica. Adorei os estudos geométricos (talvez futuras logomarcas e símbolos para empresas e produtos) enquanto ele sugeria interferir o quanto quisesse na obra que eu iria imprimir (bem provável que viesse da música essa sua natureza de dividir com parceiros a produção e a criação). E tudo isso aconteceu na mesma tarde que ele me apresentou a Ravi Shankar e Meredith Monk...

A partir daí, me tornei, voluntariamente, uma espécie de curador de sua produção gráfica. Juntos fizemos planos e ideias de produzir zil coisas: álbuns de gravura em serigrafia, exposição do Clube da Gravura da Paraíba no Parque Lage, no Rio de Janeiro, livro de cordel (Cartas de amor de Isidora para João de Pantanha), instalações (Estupro da Mata Atlântica e Chacal Presidente, no Espaço Cultural José Lins do Rego), cartazes para shows, mail art, camisetas anarco-políticas, entre outras ações. Um trabalho exemplar foi as mil capas realizadas para aquele histórico (e único) long playing do Jaguaribe Carne que inaugurou uma ideia de devolver a unicidade à produção em série. Cada cópia do disco ganhou uma capa única, especial. Pedro Osmar trabalhou feito bicho e chamou meio mundo, entre artistas plásticos, crianças, amigos e vizinhos, para interferir nas capas. São obras que merecem ir para a parede de qualquer galeria (enquanto o disco toca na vitrola).

Pedro esteve me apresentando, recentemente, muitos desenhos que são apenas rabiscos (tinta e caneta nanquin) desenvolvidos durante sua estadia em São Paulo, e que se arrasta há alguns anos. Mas, poderiam ser também “páginas de um diário de bicicleta” preparadas como um belo poema em preto e branco. E é graças a sua inquietação que temos o prazer de tê-lo como poeta e artista gráfico da melhor qualidade. Pouca gente sabe que ele é o autor de logomarcas como a do Manaíra Shopping, da Indústria Cerâmica Elizabeth (1ª versão) e do CECAD. Ele não para. Transformamos alguns destes desenhos “paulistanos” em um álbum de serigrafias onde usei apenas duas cores: preto e prata (e onde fui o impressor). Pode parecer bobagem, mas, vez ou outra estamos a falar de nossas negritudes e do vil metal que também nos alimenta, daí o título do álbum ser “Preto e prata”.

A verdade é que Pedro Osmar atuou em várias lutas políticas e brigadas populares; ouviu muita música de carnaval cantada por sua mãe; leu muito jornal de enrolar peixe (do dia anterior); conheceu Aloísio Magalhães e Walter Smetak duma vez só; participou de várias greves de fome; frequentou aulas de ballet e templos religiosos de outras cores; bebeu muito guaraná Sanhauá, fez música para cego ver e continua gargarejando Água Rabelo. No meio, é mais conhecido como “guerrilheiro” cultural, multimídia, experimentalista, guru do Jaguaribismo, pau pra toda obra. Daí, sua vida (ou sua arte?) parecer mais uma briga de foice. E no escuro!

segunda-feira, maio 19, 2014

grandes formatos na REDE

Seguindo o preceito de que toda mostra de artes visuais – em lugar público ou privado, de caráter individual ou coletivo –, não seja apenas mero ajuntamento de obras de arte, a galeria Rede Arte Contemporânea investe firmemente na ideia de que qualquer exposição deve ter certo cuidado “conceitual” por parte do seu curador ou organizador. 

Em outras palavras, isto quer dizer que as obras (e a exposição) devem ser exibidas dentro de uma temática que facilite a sua compreensão (e apreensão) por parte dos visitantes. Nisso também deve estar incluído uma boa montagem, a mediação realizada por monitores treinados, a exibição (e disponibilização) de textos explicativos e informações técnicas sobre as obras, os artistas e sobre a proposta curatorial etc. Certamente assim haverá maior empatia entre obra e espectador...

Pensando nisso a Rede resolveu propor como tema para sua nova exposição um assunto – as dimensões das obras de arte – que, apesar de parecer banal, tem lá sua importância tanto na produção cotidiana do artista como no sistema do mercado de arte. E aqui há um dado que merece destaque: a maioria dos artistas define o valor de suas obras a partir de medidas como o metro quadrado, por exemplo. Ou seja, uma obra maior (nas dimensões) vale mais que uma obra menor. Isto é claro e simples.

Mas há outras questões (e reflexões) neste tema das dimensões das obras de arte. No aspecto histórico da arte, por exemplo, as obras produzidas pelos artistas do Modernismo raramente ultrapassavam um metro quadrado. E isso ocorria porque nem sempre havia colecionadores privados com tanto espaço em casa ou por causa das poucas “paredes” dos poucos museus da época. Um artista só produzia uma grande obra (no sentido físico, bem entendido) apenas quando se tratava de encomenda. O que ainda ocorre nos dias atuais...

Há um fato curioso a ser compartilhado. Na Paraíba, no final dos anos 80, aportou uma imensa mostra de arte contemporânea da Alemanha, contendo pinturas e esculturas em grandes dimensões, distribuída em todo o mezanino do Espaço Cultural José Lins do Rego. Esta exposição, batizada de Arte Atual de Berlim, fez o maior sucesso. Dois anos depois, alguns artistas paraibanos, meio que atingidos em seu “amor próprio”, se juntaram ao governo estadual para também exibirem sua produção na mostra Arte Atual Paraibana, em 1988. Essa era a chance de afirmar: “Nós também sabemos pintar em grandes dimensões”. O que se viu foi uma enxurrada de belos e enormes painéis, instalações e esculturas. No entanto, logo após a exposição, passou-se a discutir sobre o porquê dessas obras enormes. Quem vai comprar? Algum colecionador privado? Temos museus para abrigá-las? Onde serão exibidas? Sabemos as respostas, mas isso não importa. O que conta é: sabemos fazer “obras grandes”.

Foi pensando nisso tudo que a galeria Rede Arte Contemporânea (localizada no bairro de Manaíra, em João Pessoa) resolveu apresentar numa mostra coletiva – a segunda neste ano de 2014 – obras em grandes dimensões de talentos das artes visuais da Paraíba. São 14 obras: pinturas sobre tela de Alena Sá; instalação de Alice Vinagre; pintura-colagem e desenhos de Margarete Aurélio; técnica mista e impressão sobre Canvas de Chico Dantas; fotografia de Rodolfo Athayde; cerâmica de Chico Ferreira; e desenho de Dyógenes Chaves, além de um autorretrato do artista convidado, Manuel Dantas Suassuna.

Claro, com tantas obras (e de grandes dimensões) é possível imaginar que as paredes da galeria estejam totalmente ocupadas e que a montagem da exposição até sacrifique o espaço disponível, tornando o ambiente “sufocante”. Mas isso é mesmo a intenção do projeto curatorial da Rede. Pode até servir para indagarmos: qual é a dimensão ideal da obra de arte? ou, ainda, que relação há entre a obra e o ambiente? Visitar esta exposição será uma maneira de encontrarmos as respostas. Ou não. 

sexta-feira, abril 25, 2014

conversa com thaïs gualberto (em exposição na aliança francesa joão pessoa)

Formada em Arte e Mídia em 2010 pela Universidade Federal de Campina Grande, Thaïs Gualberto criou em 2009 a personagem “Olga, a sexóloga taradóloga”. No ano seguinte voltou a morar em João Pessoa, sua cidade natal, e ao lado de outros quadrinistas paraibanos (ou radicados no Estado) criou o Coletivo WC que, em 2012, lançou a primeira edição da revista Sanitário. Ainda nesse ano, Thaïs juntou-se a Paula Mastroberti, Lila Cruz, Juliana Dalla e Daniela Beleze Karasawa para formar o projeto Inverna, uma publicação anual para apresentar as quadrinistas atuantes no Brasil. Em 2013 foi lançado o segundo número da Sanitário e está prevista para 2014 a terceira e última edição da revista.

1. Como se deu sua ‘descoberta’ pela arte? Foi fascinação ou desígnio?
Eu cresci em um meio favorável, minha mãe é poeta, meu pai já fez um pouco de tudo. Minha mãe é meio colecionadora, então aqui em casa tem muito quadro, muito livro, muito disco. Desde a infância eu já gostava de escrever livrinhos, músicas. Mas comecei a me dedicar de verdade em 2009, quando estava no fim do curso e criei a Olga, a sexóloga taradóloga.

2. De que forma algum curso/universidade te encaminhou para a arte? Ou vice-versa? Fale de sua formação.
Sou formada em Arte e Mídia pela Universidade Federal de Campina Grande. Logo que saí do curso fiquei meio perdida, porque ele é muito amplo, mas hoje em dia percebo como me proporcionou conhecimentos diversos. A gente aprende um pouco de música, um pouco de teatro, um pouco de cinema... Só sinto falta de mais literatura e quadrinhos lá dentro. Mas já faz quatro anos que me formei, não sei como as coisas estão agora. Quando eu entrei no curso pensava em trabalhar com animação, saí do curso querendo fazer cinema e hoje, fazendo quadrinhos, utilizo o que aprendi nas aulas de fotografia, cinema e mesmo nas de música.

3. Como você enxerga hoje o hibridismo (diferentes suportes/categorias/gêneros etc.) da/na arte contemporânea?
Especificamente na área de quadrinhos, vejo esse hibridismo surgindo na liberdade criativa que as obras atuais possuem. Hoje em dia as artes visuais estão fortemente presentes nos quadrinhos nacionais. Menos super herois e mais surrealismo.

4. Como você se define como profissional? nas artes visuais? artes gráficas?
Gosto de me definir primeiro como quadrinista e depois como editora. Não é o meu ganha-pão, mas é o que almejo fazer.

5. Você acha que há espaço/lugar/apoio (na cidade/estado/país) para jovens artistas?
Existem algumas iniciativas, um edital aqui, uma exposição coletiva ali. Mas a perspectiva de se viver de arte por aqui ainda parece uma utopia. Por sorte temos hoje a internet e com criatividade conseguimos vencer as barreiras geográficas.

6. Que artistas ou movimentos te dão mais influências ou te agradam mais?
É difícil dizer... Fiz um quadrinho de vinte e quatro páginas esse ano cujo título foi inspirado pelo último quadrinho da americana Alison Bechdel. Outro que eu terminei teve a arte inspirada na animação South Park. Eu uso tudo que está ao meu redor, mas não sei se tenho uma influência direta...  Tenho acompanhado a produção feminina de quadrinhos no país e algumas autoras no exterior também. Talvez seja essa a minha maior influência, toda essa profusão de temas e traços saídos das mentes femininas.

quinta-feira, janeiro 30, 2014

a arte surge assim, na rede (arte contemporânea)

Na Paraíba, como em todo o Brasil, o mercado de arte sempre aposta naqueles artistas visuais que já estão consolidados, seja pela crítica e/ou instituições oficiais, ou ainda, quando são selecionados por meio de competições (os salões de arte) e de curadorias que vez ou outra tentam mapear este imenso território brasileiro. Daí, a partir deste status quo, os artistas logo ganham espaços nas galerias privadas e entram no mercado de arte dominado pelas escolhas de poucos colecionadores, de arquitetos decoradores e/ou exibidos em feiras de arte, notadamente em centros mais desenvolvidos como Rio e São Paulo.

Na Europa, Ásia e Estados Unidos há uma inversão de fluxo. Primeiramente, as galerias comerciais é que lançam os novos artistas que, em sua maioria surgem mesmo é nos bancos universitários, algo raro no Brasil em função da pequena quantidade de cursos de artes. O mercado, neste caso bem mais maduro que o nosso, passa a determinar quem é quem e, na maioria das vezes com a anuência de um professor-artista ou colecionador, público ou privado, individual ou coletivo (museu, fundação etc.). Logo depois é muito comum que este novo talento apresente sua produção em grandes museus e seja selecionado para as bienais e feiras de arte, que hoje proliferam até no nosso país.

Foi pensando neste paradoxo que a galeria Rede Arte Contemporânea (localizada no bairro de Manaíra, em João Pessoa) resolveu apresentar uma mostra coletiva – de 1º de fevereiro a 1º de março de 2014 – unindo as obras de novos talentos das artes visuais da Paraíba. Em que pese alguma diferença de técnicas, linguagens e idades, estes artistas tem como ponto de referência o fato de serem “novos”. No sentido, claro, de serem pouco reconhecidos em nossa sociedade, por toda a cadeia produtiva – imprensa cultural, críticos, professores, galeristas, colecionadores etc. – e até pela comunidade artística. Destes artistas, alguns, casos de Alberto Moreira (nascido em Sousa, Paraíba, e atuante entre Recife, São Paulo e João Pessoa) e do paulistano Francisco Milhorança (radicado na cidade desde 2008), já possuem larga vivência no mundo da arte, da pintura às artes gráficas. Estudaram e trabalharam em centros de mais tradição na arte contemporânea, como São Paulo e Europa, o que lhes assegura certa “maturidade”, mesmo assim são “novos” para muita gente que ainda não conhece a sua produção.

Por outro lado, as artistas Cristina Carvalho e Danielle Travassos surgiram nos bancos da universidade, no curso de artes visuais da UFPB. Com trajetórias já reconhecidas em importantes eventos dedicados aos novos talentos – o Samap, de João Pessoa, onde Danielle abocanhou o prêmio de artista revelação em sua penúltima edição, e o Salão de Abril, em Fortaleza, selecionada que foi nesta concorridíssima competição nacional –, ainda assim não conseguiram o seu “lugar ao sol” no acanhado mercado local. Cristina Carvalho tem seguido o mesmo caminho de Danielle. Com atuação em eventos regionais e selecionada em projetos do Programa Banco do Nordeste de Cultura, participou de residências artísticas em Recife, Fortaleza e Sousa, no Sertão paraibano. Mas, ainda devemos tratá-las como novos artistas? Claro, chegou a hora de apresentar a rica produção (e suas pesquisas) destas artistas para o grande público, notadamente aqueles que gostariam de investir em um artista jovem, em início de carreira, e que possa oferecer sua arte a valores mais módicos que os “medalhões” da arte paraibana.

Já Thiago Trapo, que completa a mostra coletiva, é o mais novo (e jovem) dos cinco. Descoberto em mostras individuais nos programas para novos talentos da Energisa e da Aliança Francesa João Pessoa, tem atraído atenção de apreciadores das artes visuais pelo despojamento estético (e atualíssimo) de suas colagens-pinturas, o que lhe confere o título de revelação dentre outros artistas de sua geração, emergente há poucos anos nessa febre de arte pública, de coletivos de artistas e de colaboracionismos que, ainda bem, pipocam no país em meio às recentes (e polêmicas) manifestações (e rolezinhos) em praças e ruas, cidades e campos.

Assim, com muito prazer, a Rede Arte Contemporânea investe na obra destes “novos” artistas. As suas pinturas, desenhos e colagens-pinturas passam agora a desfrutar de um “lugar ao sol” no mercado de arte local. E em uma “rede”, na sombra, melhor dizendo.

segunda-feira, janeiro 06, 2014

haja fôlego!, de chico ferreira

Há artistas que trabalham apenas nos dias de semana, em horário comercial e obedecem às leis trabalhistas. Estes são os operários da arte. Já há artistas que trabalham em qualquer dia, qualquer horário (trabalham a vida toda, melhor dizendo) e seguem apenas sua vontade. Estes são os artistas de verdade. Os imprescindíveis. Para estes, arte e vida e trabalho tem a mesma importância.

Chico Ferreira, que conheço há quase trinta anos, está entre estes artistas raros, que trabalham enquanto vivem. Ou melhor: vivem enquanto trabalham. O dia todo, todo o dia, Chico é uma máquina de ideias (e ideais) de fazer inveja a qualquer um.

Há artistas que tem fases: ora azul, ora preto, ora branco... Já há artistas, caso de Chico, que emendam (ou integram) uma fase na outra como se tudo fosse uma só fase, uma só obra.

Na verdade, Chico Ferreira, que não para de se bulir, constrói uma obra que nunca se basta em/para si. Uma novidade a cada dia é seu lema. Aliás, na sua bucólica casa-atelier-santuário, tudo não fica no mesmo lugar... Nem que seja para apenas mudar de lugar uma planta, um peixe, uma pintura. E mais: não lembro, nestes tantos anos de convivência, de chegar em seu ateliê para não ouvir dele: “Vem ver o que estou fazendo agora”. Com domínio largo da técnica do fogo em alta temperatura (e da pigmentação em cerâmica), se acerca de ferramentas, tornos e moldes ou de coisas estranhas (tudo que ele mesmo cria, diga-se) para por em prática sua obra “da hora”. Pleno de argumentos, ele detalha seu novo “invento-obra” com o entusiasmo de um iniciante. Aí, estamos tratando daquilo que existe. Chico não usa a expressão “vou fazer”. Ele já fez.

Há poucos dias, por exemplo, ele me falou da série Italume (ele sempre batiza suas crias). Numa recente visita à sua mãe, Dona Creuza, em Catolé do Rocha, deparou-se com a lembrança das rendas de bilros, renascença, crochês, tricôs e paninhos que as mães de antigamente bordavam para os filhos e netos que estavam por chegar. Daí, veio a ideia de homenagear sua mãe ao utilizar essas rendas como matriz das gravuras encravadas na cerâmica em alta temperatura (ita, pedra em tupi-guarani; lumen, fogo ou luz em latim).

O resultado, antes de tudo, soma-se às suas dezenas de outras séries já realizadas como um continuum de toda sua produção, da pintura ao design utilitário, dos murais às esculturas de chão e de parede e intervenções urbanas. Mas, esta série também vem carregada de forte sentimentalismo que remete às suas origens sertanejas, aos seus pais, Benjamim (in memoriam) e Creuza. Tanto que, ao lado da musa, Camila, e da pequena Capitu, quer logo voltar a encontrar as serras outrora habitadas pelos Cariris.

Nesta exposição na Usina Cultural Energisa, Chico Ferreira mostra-se por inteiro e, mesmo que com poucas peças de sua já citada vasta produção, faz com que a sala de exposição pareça uma só obra, uma instalação de cerâmicas e objetos e pinturas que carregam a marca da inventividade deste incansável e inoxidável homem do fogo.

E há outra confidência: esta é sua primeira mostra solo na Usina. Chico havia sido convidado noutra ocasião, há alguns anos, mas, altruísta, sugeriu uma coletiva para homenagear outros artistas. E nos deu a chance de descobrirmos Seu Bento e Dona Lindalva (artistas populares de mão cheia!), e redescobrirmos a obra fotográfica de seu parceiro Roberto Coura...

quarta-feira, novembro 13, 2013

único, autêntico, sofisticado. tudo junto, de alberto lacet

O artista Alberto Lacet nasceu nas serras do Teixeira, no Sertão da Paraíba, mas vive e trabalha em João Pessoa há trinta anos, depois de ter passado por Campina Grande no final dos anos 70. Ele é, numa só frase, sem dúvida, o maior pintor da Paraíba dos nossos dias!

Aliás, como muitos outros já afirmaram o mesmo com propriedade, vou me policiar para não gastar palavras com elogios baratos ou palavras ao vento...

Eu lembro bem daqueles nossos encontros iniciais no ateliê de serigrafia do mestre Alcides Ferreira, ali na ruazinha do Riachuelo, entre a B. Roahn e a Maciel Pinheiro. Era início da década de 80 e tempos de boa conversa e deliciosas discussões sobre arte, história da arte e também histórias de trancoso, claro. Desde então passei a reverenciar sua arte (e seu largo conhecimento sobre arte e técnica, diga-se), seu método refinado. Virei fã incondicional.

O tempo (ah, o tempo...) cuidou de fazê-lo ainda mais refinado. Como é do estilo dos autênticos, Alberto Lacet obra lentamente a sua cria, como que lambendo, limpando, tirando os excessos (e há excessos em Lacet?). E, talvez por isso mesmo todos ficamos ansiosos por ver uma mostra individual sua. Confesso até, daria tudo para assistir ao embate de Lacet com uma tela em branco... Seria um embate digno de deuses, não?

E como Lacet não parece ser deste mundo dos “simples mortais”, cito o dilema de Sísifo que, por desafiar os deuses, foi condenado a carregar uma pedra até o topo de uma montanha. Quando já estava próximo do objetivo, a pedra rolava montanha abaixo e ele começava tudo de novo. E assim tinha de cumprir, eternamente, essa tarefa sem sentido... Ora, isto nada tem a ver com Lacet (exceto a labuta interminável), mas serve como link para o “absurdo” da arte, do gesto criador, que outro Alberto, o Camus, desenvolveu num ensaio, O mito de Sísifo, em que desanda a discutir a “criação do absurdo” e onde afirma, categórico: “Se o mundo fosse claro, a arte não existiria.” E aí, suas palavras-chave “revolta, liberdade, paixão” para a aceitação do absurdo e/ou a compreensão da vida são aquilo que me faz lembrar a obra (e a função) de Alberto Lacet neste momento.

Explico. Desde que sei este sertanejo mantém-se um operário da pintura. Da boa pintura (o que o difere totalmente de Sísifo, que tinha um castigo sem sentido a executar). Dono de uma técnica sofisticada e de rara beleza, ele consegue ir adiante da mera representação figurativa que reflete a maioria da pintura ocidental. Ele é um romântico e austero com sua obra, daqueles capazes de destruir uma tela para refazê-la melhor, mesmo que perca tempo. E munido de “revolta, liberdade e paixão” tem produzido um dos mais caros tratados de pintura que já se viu nessa terra Tabajara. 

sexta-feira, março 29, 2013

memórias do olhar, de raul córdula


Raul Córdula tem toda uma produção – pictórica, estética, política, poética, sensorial, gráfica, visual, plástica, literária etc. – dedicada não apenas aos olhos do observador e que extrapola muitas questões propostas pelo sistema da arte tal qual o conhecemos desde há trezentos anos, pelo menos. Raul vai muito além da ideia comum em situá-lo apenas como esteta ou pintor, como é mais conhecido. Sem dúvida, essa constatação de multiartista faz de Raul Córdula um raro espécime em nossas artes visuais.

Aliás, infelizmente pouca gente sabe desta sua obra tão vária. Por este motivo, ano passado, ao comemorar seus 50 anos de atuação, Raul optou por apresentar uma antologia de sua produção na tentativa de abarcar o vasto repertório desenvolvido ao longo de tantas situações, lugares, movimentos e momentos cruciais na recente história da arte brasileira. Nesta mostra, 50 Anos de Arte, exibida no Parque Dona Lindu, em Recife, ele mesmo (com a cocuradoria de Olívia Mindelo) segmentou em “fases” ou “séries” algumas das suas obras: das aquarelas produzidas em Paris (1991) às ações em arte postal (O País da Saudade), dos primeiros desenhos (1965) à atividade multidisciplinar a partir do conto A Gaivota Cega, das pinturas de teor político (Araguaia e 1968) às geometrias recentes... E, mesmo com correta montagem, obras seminais de sua lavra, belo texto da jovem Olívia Mindelo, ação educativa e estupenda visitação (cerca de 50 mil pessoas), a mostra ainda não deu conta de nos apresentar, verdadeiramente, o múltiplo e raro Raul Córdula.

Agora, por ocasião da abertura das comemorações dos 10 anos de atuação da Usina Cultural Energisa, há nova oportunidade de adentrarmos – nós, seus conterrâneos em especial – no rico universo deste artista. E, mais uma vez por sua decisão em desvelar outras de suas “fases” e “séries”, Raul escolheu obras destinadas a também falar de sua paraibanidade, talvez até remetendo à citação atribuída a Leon Tolstói: “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”. Raul Córdula apresenta algumas obras – até inéditas aqui na “província”, apesar de produzidas desde os anos 60 – em sincera elegia à sua terra natal, como as séries Bandeira do EGO, Pedra do Ingá e Borborema. Outras pinturas, geométricas e recentes, além de objetos, assemblages, vídeos e desenhos compõe essa antologia do seu fazer artístico. Estas são suas “memórias do olhar” e que, graças também à sua verve de historiador (e poeta), revela-se primorosa crônica de seu tempo.

quinta-feira, dezembro 20, 2012

josé lyra - o pintor da parahyba


Não conheci José Lyra pessoalmente. Mas lembro bem de sua loja/atelier – Foto Lyra – na rua Peregrino de Carvalho, na época que eu fazia o trajeto entre a General Osório e a Visconde de Pelotas, passando pelo edifício 18 Andares, o  Cine Rex e o Clube Cabo Branco. Algo que me chamava atenção, claro, além de ser uma das poucas casas de material e serviço fotográfico da cidade, é que havia nas paredes algumas pinturas (retratos e paisagens) de José Lyra. Isso muito me interessava porque era aluno dos cursos de iniciação às artes na antiga Coordenação de Extensão Cultural da UFPB, ali em frente ao Cine Municipal. Sempre gastava alguns minutos olhando a vitrine e o interior da loja... mas, tímido que era, nunca me aventurei adentrá-la.

Somente anos depois é que fui saber de José Lyra e de seu Foto Lyra. Num livro de Raul Córdula e Chico Pereira sobre os anos 60, descobri que ali havia sido o atelier deste artista e também a primeira sede do Centro de Artes Plásticas da Paraíba – o CAP –, que existiu entre os anos de 1946 a 1959. Diz Raul Córdula: “Antes da intensificação do movimento de artes plásticas que caracterizou os anos 60 houve, em João Pessoa um aglomerado de artistas de cavalete que, reunidos no Centro de Artes Plásticas da Paraíba, assumiu a pintura de paisagens e retratos da cidade daquela época. A estes artistas, envolvidos no bucolismo da Filipéia, leitores de Rilke e Proust, decupadores dos tons de verde vegetal e marinho, seguidores dos pintores franceses, de Monet a Matisse, os jovens artistas dos anos 60 devem o sereno exemplo da humildade. Foi no Centro de Artes Plásticas que Ivan Freitas, Archidy Picado e Breno Mattos iniciaram-se por orientação de José Lyra, Olívio Pinto, Pinto Serrano e Hermano José.”

O CAP, inicialmente denominado de Centro de Artes Plásticas Pedro Américo, foi a primeira investida na nossa cidade, enquanto grupo organizado de artistas, a propor o ensino de artes plásticas, promover mostras anuais e acolher artistas de outras cidades. “Era na verdade um misto de associação de artistas plásticos e escola informal de arte onde também circulavam poetas e intelectuais.”, afirma o professor da UFPB, Gabriel Bechara.

A história do CAP se confunde com a atuação de José Lyra. Nos seus primeiros anos, José Lyra abrigava em seu atelier as principais ações previstas nos estatutos do CAP, além de ser, neste período, a sede e ponto de encontro dos seus membros. Diz-se que muitos frequentavam o atelier de Lyra apenas para vê-lo pintar... Além de Lyra, o CAP era formado pelos artistas Olívio Pinto e Pinto Serrano (seus primos), Geraldo Moura, Oswaldo Muniz, José Macedo, José Tinet, Edésio Rangel, Hermano José, José Castor do Rego, Elcir Dias, Demócrito de Castro e Silva, João Batista Pinto entre outros, como Clarisse Lins, Arnaldo Tavares e os jovens Ivan Freitas e Archidy Picado, que se agregaram posteriormente a 1947, ano da primeira grande exposição do grupo na Associação Paraibana de Imprensa. Na verdade, pelo fato de ser o único espaço coletivo dedicado às artes plásticas na província, o grupo envolveu artistas e intelectuais de várias tendências estéticas e até políticas, neste caso, os nomes de Leonardo Leal, Olívio Pinto e José Clerot, pertencentes ao Partido Comunista.

Sem patrocinadores, o CAP viveu anos de altos e baixos. Apesar disso houve, esporadicamente, alguma ajuda oficial embora nada comparado com a Escola de Música que recebia apoio financeiro do Estado e era mais interessante aos olhos da elite local. Lyra chegou a organizar um leilão para cobrir gastos com a limpeza, aluguel e conservação do lugar, num prédio da rua Barão do Triunfo. O êxodo dos artistas Hermano José – que, aos poucos substituiu Lyra na condução das atividades do CAP – e Ivan Freitas para o Rio de Janeiro, a falta de apoio sistemático do Estado e a inexistência de um mercado de arte local foram alguns dos motivos para a derrocada deste pioneiro grupo de artistas plásticos na cidade, além do que as funções do CAP, gradativamente, eram transferidas para o poder oficial.

Lyra, na verdade, foi um dos poucos do grupo que iniciou o público local a consumir arte. Sua produção de retratos e paisagens era, paralelamente, à sua atuação como fotógrafo, objeto de desejo da sociedade pessoense. Trazido ainda jovem do Rio Grande do Norte por familiares envolvidos na arte fotográfica, José Lyra iniciou-se retocando chapas e ampliações. Sua família, além dos primos, os fotógrafos e pintores Olívio Pinto, Gustavo Pinto e Pinto Serrano, também tinha no avô paterno, José Graciliano de Goés Lyra, uma referência na pintura e escultura.

Mas a fotografia foi, de fato, aquilo que garantiu a sobrevivência de Lyra. Desde o início do século passado, o retrato tornou-se algo comum entre as famílias mais abastadas. A fotografia era amplamente utilizada, em especial na revista Era Nova (anos 20), que tratava da vida social às amenidades político-culturais da elite paraibana. E, aos poucos, vai fornecer as imagens necessárias dos modelos e, ao mesmo tempo, passam a ser colorizadas e tratadas como pintura. Tanto que, nesta época, os artistas Frederico Falcão, Pedro Tavares, Olívio Pinto, Pinto Serrano e, anos mais tarde, José Lyra, tiveram destacada atuação como fotógrafos, mesmo caso do desenhista suíço Eduardo Stuckert, estabelecido na cidade desde 1900.

Raul Córdula assim ilustra o surgimento de Lyra: “Quando menino ele pintava os 25 bichos do jogo. Diziam a Gustavo [Pinto, seu primo] que ele desenhava muito bem, e foi por isso que ele, aos 18 anos mudou-se para cá para aprender fotografia iniciando-se como retocador de fotografia.” Mas o pintor José Lyra ia muito além da fotografia, embora a utilizasse como estudo para seus retratos. Ora, dado a essa sua “iniciação” pela fotografia Lyra aprendeu todos os segredos de luz e sombra. Tornou-se desta forma, por excelência o nosso principal paisagista e retratista.

Mesmo que um apaixonado em “retratar” a cidade que escolheu para viver e constituir família, há que se destacar da obra pouco conhecida de José Lyra sua ligitimação além fronteiras. No começo da década de 50 exibiu-se em eventos em Natal e Recife, conquistando o prêmio de Menção Honrosa numa das edições do Salão de Pintura do Recife, oferecido pela Universidade de Pernambuco. Há ainda, eu soube, uma série de nus pintados por Lyra e, por causa do conservadorismo de sua província, desconhecida do público. Suas paisagens (com destaque para o Cabo Branco) e naturezas-mortas, mesmo em tom realista, eram verdadeiras aulas de pintura e já anunciavam algum flerte com o expressionismo e o surrealismo. Ele dominava a arte da pintura, sem dúvida. E dominava a arte do retrato, em especial.

Citado no livro Fotografia na Paraíba (Editora UFPB, 1997) do professor e fotógrafo Bertrand de Sousa Lira (a partir de entrevista publicada no jornal O Norte, em 1975), o artista assim se situa, entre a fotografia e a pintura: “Não sei se fotografar é arte. É mais técnica, mas admito que sendo artista, posso fazer. Para mim foi uma atividade inteiramente alienada à pintura.”

Independente de qualquer “ranço” existente entre a pintura e a fotografia, José Lyra marcou definitivamente seu nome na história da arte paraibana. Seja como nosso mais importante retratista (de pessoas e da paisagem), como principal articulador do Centro de Artes Plásticas da Paraíba ou como condutor do Foto Lyra (que manteve suas portas abertas até 1980). Urge que organizemos uma bela exposição de sua obra, não apenas porque comemoramos o centenário de seu nascimento (em 31 de outubro), mas pela extrema vontade de (re)conhecermos nossa cidade em sua obra... E, mais uma vez, Córdula afirma: “Lyra montou seu Foto e passou a pintar a vida e a alma da cidade que ele conhecia ainda calma, barroca e Art Noveau, antes e depois da Lagoa [Parque Solon de Lucena] urbanizada. No tempo que os Pau-D’Arco floriam de uma só vez, haviam marrecos no lago e as andorinhas voavam sobre a tarde. Antes do cinemascope e da universidade, no tempo do Ponto de Cem Réis, com os seus quiosques em forma de rins.”

Ah! Que saudades de José Lyra, do Foto Lyra e de nossa bucólica província...

quinta-feira, novembro 29, 2012

em cartaz (grupo DIA em exposição na aliança francesa joão pessoa)

As artes visuais em nossa Paraíba tem pouquíssimos casos de grupos (ou coletivos) de artistas. Essa constatação, infelizmente vai de encontro à cena contemporânea em que, cada vez mais, os artistas buscam na ação (e produção) coletiva alguma forma de se contrapor às políticas públicas, sempre excludentes aos iniciantes e jovens talentos.

Nos anos 60, em Campina Grande, o grupo Equipe 3 (Anacleto Elói, Chico Pereira e Eládio Barbosa) foi pioneiro na forma de trabalhar como coletivo (de fato). Além das várias ações, performances e happenings, o grupo empreendeu uma “viagem de estudos” pelos principais centros do país para visitar museus e mostras como a Bienal de São Paulo e a Bienal da Bahia. Mesmo assim, cada um dos artistas tinha sua própria “linha de ação” enquanto indivíduo, culminando em participações “solo” nas Bienais de São Paulo (Eládio) e da Bahia (Chico Pereira e Eládio). Mas, reconhecemos que foi o coletivo que projetou o artista.  

Nos anos 80, no NAC/UFPB, o grupo 3NÓS3 (Hudinilson Júnior, Mário Ramiro e Rafael França), de São Paulo, trouxe para a cidade outro bom exemplo de um coletivo de artistas, não o suficiente para influenciar o surgimento de algum grupo local nesse período. A cena da época ainda enxergava o artista como algo único, individual.

Hoje, o grupo DIA, formado pelos jovens Daniel Ferreira, Izaac Brito e Américo Gomes, traz um sopro de felicidade ao reviver o sentido de trabalhar “pensando junto”. Todos com a ideia de dividir espaço, ação, emoção e conceito. Com passagens pelo curso de Artes Visuais da UFPB (onde se conheceram em 2007), estes artistas seguem o mesmíssimo ideário do Equipe 3 e do 3NÓS3: juntar experiências e discuti-las até tudo resultar numa coisa só, conceitual e esteticamente falando. As forças (e os conhecimentos adquiridos individualmente) são canalizadas para um tema escolhido que pode surgir de um filme, de uma música, das artes gráficas, ou de qualquer assunto que lhes interesse discutir, afirmar, reafirmar, negar...

Para esta mostra, Em Cartaz, na Aliança Francesa João Pessoa, o grupo foi buscar no cinema (vide o título bem apropriado) a ideia para produzir uma série de objetos referentes a filmes – Psicose, de Alfred Hitchcock, e O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte, por exemplo – que servem de suporte para a ilustração de algumas cenas marcantes.

Pelas palavras dos “meninos”: “Esta série fala de objetos, mas não de todo objeto. A cenografia é parte fundamental de um filme e, em certos casos, elementos componentes da cenografia ganham grande importância, sendo indispensável para determinada cena. Estes elementos cenográficos adquirem eventualmente status de ator. Seria possível até criar um hall da fama para esses artistas despercebidos batizados aqui como ‘personagens cenográficos’.”

No mais, nosso maior interesse é que o DIA continue sempre se afirmando, trabalhando, atuando... se redefinindo a cada dia. Afinal, cada dia é um novo DIA.

conversa com o grupo DIA

1. Como se deu a ‘descoberta’ de vocês pela arte? Foi fascinação ou desígnio?
Por algum motivo, as crianças adoram desenhar, colocar no papel as coisas e as pessoas que gostam. Não foi muito diferente para nós. O que acontece é que nós como coletivo, tentamos unir nossos pontos de vista, gosto pessoal e afinidades. Tentamos convergir tudo isso em um único produto final, algo que deixa de ser três e passa a ser um só e aquilo que era três passa a ser apenas DIA.

2. De que forma vocês chegaram ao curso de artes da UFPB?
Nos conhecemos estudando artes visuais na UFPB onde pudemos direcionar e aprimorar aquilo que conhecíamos sobre Arte. Apenas Américo concluiu o curso. Daniel optou por estudar Design Gráfico em outra instituição e Izaac, já com formação em Marketing e propaganda migrou para o curso de Comunicação em Mídias Digitais e cursa em paralelo uma Pós-Graduação em Criação Multimídia.

3. Como vocês enxergam hoje o hibridismo da/na arte contemporânea?
Vemos isto como uma ampliação de possibilidades. A oportunidade de infinitas experimentações.

4. Como vocês definem sua atuação nas artes visuais?
Atuamos de forma intensa! Praticamente todos os dias nós estamos desenhando, mesmo que não haja sequer intenção de mostrar essa produção. Usamos quase sempre os meios de produção rápida, e o desenho é a melhor deles! De forma rápida, objetiva e eficiente podemos produzir a representação visual da mensagem que temos a transmitir, quer seja um ponto de vista singular de músicas que gostamos de ouvir ou mesmo o ritmos do momento ou ainda figurações de grandes obras do cinema mundial sob uma ótica diferente.

5. Vocês acham que há espaço/lugar/apoio para os jovens artistas?
Não! Tem muita gente de qualidade por aí que a acaba desistindo da arte pra se sentar atrás de balcões e birôs por que essa seria a única forma de colocar comida em casa, enquanto figuras carimbadas de um circuito pré-estabelecido por amizades e indicações faz com que os artistas de sempre vençam os editais e ocupem as galerias. É triste, mas essa é a realidade em que vivemos e são raras as oportunidades em que jovens artistas conseguem seu lugar ao sol. Este é o cenário encontrado em instituições específicas da Arte. Sem muitas opções para desaguar sua produção o jovem artista caminha pelas margens destes ambientes, inserindo-se em circuitos alternativos ou mostrando seu trabalho na maior e mais acessível galeria existente, a rua.

6. Que artistas ou movimentos dão a vocês mais influências ou agradam mais?
São inúmeros os artistas dos quais admiramos o trabalho, porém são influências diretas em nossos trabalhos, a street art, o design de cartazes, os grafites, entre os diversos ilustradores e animadores contemporâneos. A estética de um filme ou uma animação, o desenvolvimento de personagens para jogos ou mesmos a narrativa visual das páginas de um quadrinho compõe a nossa extensa lista de referências. 

quinta-feira, setembro 13, 2012

um eu, outro eu. eu coletivo

Os anos 1960 foram marcados em todo o mundo por acontecimentos pontuais: guerras, revoluções, explosões, gritos e gemidos. Dos movimentos feministas à Geração Beat; dos hippies de Woodstock aos jovens do Maio de 68, em Paris; das ditaduras sul-americanas à Guerra do Vietnã; da revolução cubana à descolonização da África; da Tropicália de Caetano Veloso ao Minimalismo de Philip Glass; da Pop Art às novas fronteiras e suportes da arte: vídeoarte, arte conceitual, poesia visual, arte postal... Tudo cheirava a mudanças drásticas.

Andy Warhol e seus amigos da Pop Art passaram a criticar a sociedade de consumo norte-americana utilizando imagens comerciais e objetos extraídos do cotidiano em seus trabalhos, momento em que discutiam novos termos: reciclar, transformar, apropriar etc.

Aliás, o jovem Cláudio Foca poderia muito bem ser situado como artista Pop. Ele mesmo assume ao falar dos objetivos de sua obra: “Desconstruir um produto, uma imagem, um texto. Em meio a esse bombardeio de informações, quero causar um impacto positivo e divertido em quem tem olhos para ver. Propondo assim, um novo entendimento, uma releitura dos ícones existentes que nos envolve todos os dias, na TV e nas ruas.”

Todos sabem que o artista Warhol, judeu de classe média de Pittsburgh, na Pensilvânia, antes de se tornar o maior representante do Pop era vitrinista e desenhista de acessórios de moda. E foi essa experiência que o levou a “perceber” a cultura do excesso provocado pela publicidade, pela cultura do consumismo exagerado, pelo mass media.

Com visão privilegiada e bastante antenado com sua geração, Cláudio Foca também acrescentou suas próprias referências e vivências – a tatuagem e o skate, por exemplo – à produção de estampas e desenhos, vez por outra com a participação de amigos como colaboradores. E é aí que se explica o título de sua primeira exposição: Eu Coletivo. Tal como a produção Pop brasileira dos anos 60, também conhecida como Nova Figuração, toda a obra de Cláudio Foca é carregada de humor e irreverência. Basta observar atentamente suas “releituras” de slogans e chamadas publicitárias impressas em veículos de massa, como as camisetas de sua grife MadaFoca.

Aliás, com esse seu empreendimento, e sem perceber a importância da sua produção nas artes visuais (nem pretender os holofotes do Pop), Cláudio nos propõe a democratização (e desconstrução) da imagem, tal aqueles jovens idealistas e ávidos por discutir seu mundo com perspicácia e inteligência. Na verdade, é um jovem artista que muito se destaca nessa multidão do excesso. E, lúcido que é, nos fala de si – o Eu – e do todo: o Coletivo.

conversa com cláudio foca (em exposição na aliança francesa)


1. Como se deu sua “descoberta” pela arte? Foi fascinação ou desígnio?
Nos anos 90 comecei a me interessar mais por arte, de tomar gosto em apreciar a produção de tanta gente boa, em suas diferentes formas, estilos e técnicas, em criar e apresentar um trabalho artístico. Daí, como estava mais envolvido com o skateboard, acabei absorvendo sua cultura, algo mais underground e inovador pra época, e que até hoje é referência. Visto em filmes, fotos, músicas, desenhos, e uma gama de maneiras de expressar ideais e pensamentos de um tipo de revolução. 

Em 1998 eu trabalhava em Recife numa fábrica de shapes (prancha) para skates, criando desenhos que viriam a estampar os mesmos. Era gratificante saber que alguém em outro lugar do país tinha curtido meu trabalho, mesmo que exposto numa vitrine de loja.

2. Vc tem alguma formação acadêmica?
Infelizmente não tenho uma formação acadêmica em artes, passei perto cursando Radio e TV na UFPB em 2003. Tudo que produzo é muito intuitivo. Observar, assimilar e executar.

3. Como você enxerga hoje o hibridismo da/na arte contemporânea?
O bom artista é o versátil. Aquele que consegue se adaptar com o tempo e suas mudanças, que em seu processo criativo pode até fundir o tradicional com algo moderno e obter um bom resultado. A procura pelo novo é uma tendência natural. Reciclar, recriar, contornar as regras.

4. Como você define sua atuação nas artes visuais?
De alguma maneira, mesmo que timidamente dou minha contribuição para a arte, trabalhando em parceria com outros artistas ou dando apoio para eventos alternativos, bandas, por exemplo. Fazendo tatuagens, usando a pele como tela.

5. Você acha que há espaço/lugar/apoio para os jovens artistas?
Sim. Poucos, porém existe. Um exemplo a ser seguido é o da Aliança Francesa que, abrindo suas portas para novos artistas, mantém um ciclo positivo para a arte e os artistas locais.

6. Que artistas ou movimentos te dão mais influências ou te agradam mais?
Gosto muito de Pop Art, Dadaísmo e Arte Conceitual. De trabalhos de tatuadores como Joe Capobianco, Shiko, Trevor Brown, Moebius... A lista é grande... São vários seguimentos artísticos.

terça-feira, junho 12, 2012

homem/paisagem/visagem


Com o objetivo de comemorar os cinco anos de significativa atuação do Centro Cultural Banco do Nordeste, em Sousa, Alto Sertão da Paraíba, aceitamos convite da direção deste centro cultural para organizarmos uma exposição coletiva, exclusivamente com artistas nascidos ou radicados nesta cidade sertaneja, como uma síntese da produção artística local que tem como objetivo fazer alusão à paisagem humana e geográfica da região, desde as referências ao “Homem”, o povo resultado desse caldeirão em que se mesclaram os índios Cariris, além de europeus e africanos, até as contradições de uma paisagem em que o relevo das serras se contrapõe à dureza dos cactos.

E, ao optar por esta vertente – Homem e Paisagem –, aliás tema recorrente quando da inauguração deste CCBNB, em junho de 2007, em que outros artistas paraibanos se apresentaram nas dependências da sua galeria de arte, fazemos agora nova abordagem dedicada a refletir sobre a “função” dos artistas locais envolvidos com a “geografia” da cidade e da região, além da importância arqueológica e histórica da sua gente, do seu entorno.

Aliás, tudo neste homem e nesta terra suscita certo ar de drama e austeridade. E, nada melhor que tentar compreendê-los através das obras destes artistas – da mesma origem, mas de gerações e tendências diferentes –, que ao falar de sua terra, falam para o mundo, ou, do mundo.

O homem e a paisagem deste lugar podem estar presentes em pinturas, caso dos talentos de Welson Bruno e de Maricélia Casemiro; nas esculturas estilizadas ou distorcidas, de Berg Almeida e Bené Pereira, que retratam a face mais sertaneja e sofrida desse povo. E que registre-se o talento do artista Bené por sua rica inventividade ao aproveitar material de sucata (de lata de alumínio e ferro) para criar objetos que também remetem às nossas origens africanas, com todo seu misticismo. Aliás, esse aspecto iconográfico de referência às culturas africanas e indígenas pode ser observado na produção de Mércia Ginna e Sérgio Barbosa. A face nordestina é ainda exemplarmente registrada nas fotografias de Márcio Moraes e de Sidney Alves, este também fazendo contraponto com a aridez da paisagem local. Na verdade, a paisagem reflete, ela mesma, a imagem do próprio observador, do tempo, da terra. Já os artistas Aparecida Moura e Mateus Sarmento, este retornando de temporada de estudos de pós graduação em Portugal, mostram resultados de muito interesse ligados à paisagem. São registros fotográficos em que os artistas optam por interferir na própria obra, seja nos aspectos formais ou mesmo quando “recebe” a colagem de novas imagens formando, ao final, nova paisagem.

O artista Braz Marinho, certamente, o mais proeminente nesta coletiva e com larga atuação inclusive em nível internacional, apresenta algo incomum e irreverente: uma baleadeira (estilingue ou badoque), tão comum às crianças do mundo rural (e até urbano), muito embora com dimensões alteradas (em suas tiras de borracha).

Já na obra/instalação de Janilson Noca, vemos clara alusão às questões políticas enfrentadas pelo homem nordestino há séculos e com apelo em discutir os aspectos sociais contemporâneos, também tão evidente na instalação de parede do artista Márcio Moraes.

Que somos? Onde vivemos? Para onde vamos? De onde viemos? A mostra é bem a “cara” do nosso mundo atual com seus contraditórios embates pela descoberta da significação da identidade, seja da terra ou do homem. 

quarta-feira, abril 18, 2012

muito prazer! (para talita paz, em exposição na aliança francesa joão pessoa)

Imagino que todo jovem artista quer que suas verdades cresçam, que perca a timidez de exibir suas ideias, que se consolide com a obra que está produzindo e que ela evolua ao longo do percurso ainda desconhecido. Então, na verdade, ele/ela tem toda uma expectativa de carreira profissional à espera de um reconhecimento além dos amigos e familiares...

E isto é muito apropriado à jovem artista Talita Paz. No meu primeiro contato com ela (quando colaborou com a exposição de Daniele Calaço, na Aliança Francesa, em 2009), ainda não sabia de suas múltiplas “habilidades”: da fotografia à dança de salão (e do ventre!), da poesia ao canto coral. Até aí nada demais para alguém jovem e plena de desejos pela arte, já que, na época, ela também frequentava o curso de artes visuais da UFPB.

Mas notei, ao longo destes anos, que Talita tinha se dedicado muito mais à fotografia: comprou uma câmera profissional e passou a experimentar ensaios lúdicos e cheios de estilo (e criativos) com amigas e clientes (que se tornavam novas amigas). Veio daí meu interesse em convidá-la para o programa Jovens Talentos, da Aliança Francesa. Mas como na vida nada acontece por acaso, desisti de – como seu curador – propor um recorte de sua produção recente, quando a deixei falar do que pensava exibir... E ela não parou de falar de suas ideias, obras, planos, projetos, desejos... Mostrou desenhos, anotações e croquis... Até que me convenci de que ela deveria fazer uma “retrospectiva” de sua produção!

Então, nesse caso, eu devia deixá-la “se mostrar”, bem solta, completa, e se apresentar a todos (e a mim também) com suas propostas várias: fotografia, poesia, assemblage, desenho, instalação, dança... Na verdade, um pouco do híbridismo que já lhe marca como artista múltipla, contemporânea (e com “futuro”). Com vocês... Talita Paz!

conversa com talita paz

1. Como se deu sua ‘descoberta’ pela arte? Foi fascinação ou desígnio?

Minha mãe fazia Educação Artística na UFPB e ela sempre me levava pra assistir as aulas. Eu era a “mascote”, a cantora mirim nas aulas de música, a atriz nas aulas de teatro e a modelo das aulas de desenho. E ficava desenhando os colegas de turma da minha mãe... Sempre tive materiais artísticos em minha volta e experimentava tudo sem restrições, amava tudo aquilo e suas possibilidades criativas. Assim, além de “designada” eu era (e ainda sou/estou) fascinada por arte e todas suas vertentes (e estou imersa nela até hoje).

2. De que forma vc chegou ao curso de artes da UFPB?

Na verdade eu sempre quis fazer fotografia. Ganhei minha primeira câmera com sapata e flash aos sete anos e ainda a tenho (cor: amarelo-limão... rsrs). Mas minha família não tinha condições de bancar meu curso, e o mesmo aconteceu com Arte e Mídia em Campina Grande: também não teve como... Assim, optei por fazer Educação Artística aqui em João Pessoa mesmo, onde eu sabia como era o curso, e sabia que agora com mais idade eu poderia tirar melhor proveito de cada disciplina oferecida pelo curso, e assim o fiz. Mas não deixei de estudar e “correr atrás” da fotografia, que sempre foi meu foco. Embora eu nunca tenha deixado de lado as outras artes que eu fazia: Canto coral, com Socorro Estrela, desde os seis anos; depois, no Núcleo de Ópera da Funesc, com Amarílis de Rebuá e, por último, no Coral Gazzi de Sá, da UFPB, com Eduardo Nóbrega e Tom K. Bem como: Dança de Salão, de 1997 a 2003, e de 2009 até agora; e, Dança do Ventre, de 1997 a 2003.

3. Como você enxerga hoje o hibridismo da/na arte contemporânea?

Acho fundamental. Pois o leque de possibilidades aumenta dando maior poder criativo e liberdade de expressão, ampliando os horizontes, intrigando, desvendando, instigando, tocando o expectador, aguçando os sentidos, pondo-os para parar, observar, refletir, discutir, destrinchar e muitas vezes montar o “quebra-cabeça” que é a vida.

4. Como você define sua atuação nas artes visuais?

Ativa, produtiva, contínua, perspicaz e silenciosa... Pois sempre foi difícil mostrar meu trabalho. Todas as minhas produções são arquivadas, guardadas e poucas pessoas as conhecem, não mostro para todo mundo, apenas para pessoas especiais para mim (algo meio que um ritual de intimidade e confiança). Mas hoje penso diferente, já estou mais madura e confiante, sem receios ou medos de me expor, me revelar, de compartilhar pensamentos, sentimentos, momentos. Hoje me vejo como um livro aberto... Lê quem quer! E agora estou tendo a oportunidade de abrir este livro e compartilhar um pouco do que sou e por onde passei, quem passou por mim e me ajudou a ser de alguma forma a pessoa, artista, dançarina e fotografa que me tornei.

5. Você acha que há espaço/lugar/apoio para os jovens artistas?

Sim, mas poucos. Poucos são os lugares que realmente investem no novo, nos jovens artistas. E, na maioria, quando investem não têm o cuidado de oferecer boa “apresentação” das obras. Falo isso para os “novos artistas”, pois para os já conhecidos a história e as “pompas” são outras... Quem é do meio sabe como funciona, infelizmente. Enfim, é lógico que há exceções, mas são poucas. E isto [investir nos novos], é de extrema importância para todos nós “novos”, pois só assim teremos oportunidade de compartilhar nosso talento, habilidade, criatividade, experimentações. Isso é que é legal: novas propostas, novas possibilidades.

6. Que artistas ou movimentos te dão mais influências ou te agradam mais?

Tive bastante influência de grandes amigos artistas, entre eles: Amenemar, Flávio Tavares, Eliéser Filho, Miguel dos Santos, Cristina Strapação, Florismar Gomes (Flô), Silvino Espínola, Jacqueline Lima, Maximiano Fernandes, Sheilla Fadja, Danielle Calaço, Roncalli Dantas, Américo, Marta Penner, Dyógenes Chaves, Shiko, Eleonora Montenegro, Wilson Figueiredo, Paulo Aurélio, Cácio Murilo, Júlio Fontes, Almir Xavier, Ricardo Peixoto, Edu Costa, David Ribeiro, Roberto Mendonza, Leonardo Aires, Eduardo Vieira, Eugra Souto, Eduardo Moura, entre muitos outros... Quanto a meus estilos preferidos, no que diz respeito a desenho e fotografia, me envolvo muito com pessoas, sua simplicidade, sentimentos, sensualidade e o erotismo, a estima por si mesmo, os conflitos pessoais, o romance e a mistura de tudo, a contemporaneidade.

segunda-feira, março 26, 2012

a serigrafia artística na paraíba

Na Paraíba, como em outros lugares, a técnica da serigrafia (ou silkscreen) surgiu, inicialmente na produção de flâmulas e decalques plásticos destinados à promoção de eventos, e na impressão de rótulos e caixas de papelão para embalagens de produtos (sabão, vela, cigarro, fósforo, sabonete etc.), antes, só possível por meio da impressão em tipografia e litografia.

Já a utilização pioneira da serigrafia nas artes visuais paraibanas, a partir dos anos 1970, é creditada ao serígrafo, Alcides Ferreira, e ao artista plástico, Arthur Cantalice, e este, à época, aprendeu rudimentos da técnica em viagens aos Estados Unidos. O processo então empregado era o de filme de recorte: uma película aplicada sobre uma folha de plástico, com detalhes do desenho cuidadosamente recortados, a partir do que se obtinha uma imagem vazada, ou seja, um “molde vazado” (ou estêncil). Hoje em dia, o processo denominado photoscreen – que utiliza recursos da fotografia – é o mais difundido, comercial e industrialmente.

A partir do curso ministrado pelos serígrafos, Laércio Pereira (SP) e Alcides Ferreira (PB), no Núcleo de Arte Contemporânea (João Pessoa, 1979), quando da exposição do artista, Cláudio Tozzi, e no V Festival de Arte (Areia, 1979), os artistas locais passaram a fazer uso da técnica de photoscreen, com objetivos de multiplicar e dar visibilidade à sua produção gráfica. As gravuras eram editadas no ateliê de Alcides Ferreira – considerado um dos melhores do Nordeste –, de quem o artista e serígrafo, Dyógenes Chaves, foi seu principal assistente entre 1982-86. Das obras então produzidas, destaque para os álbuns de serigrafia de artistas como Guy Joseph, Raul Córdula, Flávio Tavares, Fred Svendsen e Chico Dantas, dentre outros.

Muito antes disso, nos anos 60, o artista norte-americano, Andy Warhol, já se utilizava da serigrafia – técnica de impressão gráfica, até então apenas utilizada na produção industrial, têxtil e publicitária –, como meio principal para a realização de suas obras, no auge do movimento Pop Art.

Inventada pelos japoneses há dois mil anos, a serigrafia deriva da técnica do estêncil, muito empregada na estampagem artesanal de tecidos. Esta técnica − ainda hoje usada na marcação de embalagens − consiste em recortar, de uma folha de papel, a imagem ali existente, que resulta vazada. Em seguida, passou-se a usar um tecido de trama e fios finos e regulares, tensionado em uma moldura de madeira. Neste caso, obtém-se a impressão com a utilização de um rodo de borracha, para “puxar” a tinta ao longo da superfície da matriz (moldura, tecido e estêncil), colocada sobre o suporte (papel) em que se quer imprimir a imagem.

Em resumo: a diferença entre as diversas técnicas de gravura e a serigrafia está na forma de impressão, ou seja, na serigrafia a imagem é obtida pela ação do rodo, que viabiliza a passagem da tinta através do tecido da matriz, nas demais técnicas a imagem é obtida por intermédio direto da matriz, que é entintada para posterior transferência ao papel (tal qual um carimbo).

Hoje em dia, a serigrafia é amplamente utilizada por artistas plásticos na “multiplicação” de suas obras – quase sempre destinadas à decoração de interior em hotéis, hospitais etc., que demandam várias cópias da mesma matriz –, sem perder sua originalidade (a gravura, apesar de reproduzida em série, mantém-se original, já que é assinada e numerada, uma a uma, pelo autor) e a um custo mais acessível ao mercado de arte. O único senão é o fato da gravura em serigrafia ser totalmente manipulada por um técnico impressor e não pelo próprio artista – como se dá nas outras técnicas –, o que resulta em menor envolvimento do artista-autor com sua criação.

Entre 2010 e 2011, a Usina Cultural Energisa (João Pessoa) e o Centro Cultural Banco do Nordeste (Sousa-PB) apresentaram a mostra Serigrafia: 30 anos de produção de gravura na Paraíba, que propunha um pequeno recorte histórico da produção gráfica paraibana, apresentando a rica variedade de tendências dos nossos artistas além de pertinente discussão sobre o fazer artesanal e industrial (serigrafia) na arte contemporânea, com a exibição de obras produzidas pelos serígrafos, Dyógenes Chaves e Alcides Ferreira e de autoria dos principais artistas paraibanos.

sexta-feira, março 02, 2012

para roncalli dantas (em exposição na aliança francesa joão pessoa)

1. O mundo dá voltas. A cada volta tantos encontros (e desencontros). Até as pedras se encontram. A isso dá-se o nome de “entre”.

2. E é aí – na ida, na volta, no “entre” – que o artista, Roncalli Dantas, recolhe as mais recônditas imagens-palavras para produzir sua obra-vida. E, a cada volta que o mundo dá ele divide aquilo que recolhe com quem encontra: parceiros, amigos e anônimos. A isso dá-se o nome de “generosidade”.

Pudera. Colaborar, dividir, somar, apropriar, tomar emprestado, dar, doar, receber não são para qualquer um. Mas para Roncalli, são sim.

3. Sua obra, multifacetada e híbrida, verbo ou figura, velha ou nova, é o melhor exemplo de sua geração. A isso dá-se o nome de “o nosso mais completo artista contemporâneo”.

Pudera. Fotografia, desenho, livro de artista, poema, vídeo, objeto, não são para qualquer um. Mas para Roncalli, são sim.

4. Se pudéssemos nomeá-lo (como artista ou não), ele seria a pedra que gostaríamos de encontrar no meio do caminho. A cada volta que o mundo dá.

conversa com roncalli dantas

1. Como se deu sua ‘descoberta’ pela arte? Foi fascinação ou desígnio?

Nos últimos anos da década de 90 comecei a acompanhar o pessoal da Agência Ensaio [de fotografia], participando de exposições em varais nas ruas, de workshops nas feiras de arte e no SESC, que ocorriam anualmente em João Pessoa. Em 2002, ao entrar no curso de Letras fiquei fascinado pelos poemas concretos e pelas aulas do professor, Amador Ribeiro Neto, que foi como um choque, um tapa na cara. A materialidade visual do texto, os sentidos do espaço da página e a ênfase na verbovocovisualidade nos impulsionava a estudar, além de literatura, teoria de cinema e artes visuais. Então, comecei a estudar História da Arte numa abordagem semiótica para ter melhor compreensão dos poemas concretos. Já no fim do curso, conheci a professora, Beliza Áurea, que me apresentou outras faces, possibilidades híbridas da literatura. Ela me jogou em sala de aula para ensinar cultura brasileira para estrangeiros e fomos para o campo de pesquisa estudar performance, a palavra no “corpo” presente na canção popular, o universo colorido das festas populares e das religiões afro-brasileiras. Eu era fascinado simplesmente pela leitura, sem a menor intenção de criar.

2. De que forma você chegou ao curso de artes da UFPB?

Eu “cheguei” no curso de artes em agosto de 2005 por causa dos artistas, Cristina Carvalho e Adriano Barreto. Eles foram meus primeiros colegas de um “curso de artes” que jamais fiz formalmente. Foi um curso de segunda mão, pois eles assistiam as aulas e depois eu captava resquícios dos debates, das sobras das discussões mais importantes para eles. Eu acabei criando imagens dos professores de arte da UFPB – Silvino Espínola, Chico Pereira, Ricardo Dubinskas, Sicília Calado, Rosilda Sá, Erinaldo Alves – a partir das conversas com os meninos, que se misturavam com Duchamp, Polock, Man Ray, Einsenstein. Depois, começando a expor com Cris e Adriano, a professora Rosilda me chamou para falar sobre um trabalho de livro de artista que eu tinha realizado através de um curso no Casarão 34, que na época tinha Maria Botelho, Dyógenes Chaves e Rodolfo Athayde na coordenação. No final de 2006 fui para São Paulo fotografar as obras da bienal e das galerias com o objetivo de abrir um grupo de discussão no Núcleo de Arte Contemporânea, num projeto de pesquisa encabeçado pela professora, Paula Ziegler, que me apresentou à coordenadora do NAC, a professora Marta Penner. No ano seguinte, posei como modelo vivo para uma turma de desenho de Marta e logo após, acabei colaborando com alguns trabalhos realizados por ela e participando de grupos de estudos e grupos de pesquisa na área de ensino de artes com os professores Sicília Calado e Erinaldo. Portanto, me considero também cria do cenário artístico fomentado pela UFPB a partir da chegada dos professores Marta, Sicília, Marco Aurélio e Dubinskas, em 2006.

3. Como você enxerga hoje o hibridismo da/na arte contemporânea?

Atualmente existe uma valorização de questões sobre desterritorialização, entre-lugar, hibridismo, diálogos culturais, rizomas, fragmentação, fluidez, diluição etc. Todas estas questões filosóficas são importantes, mas quando temos como parâmetro o Brasil, estas questões ganham outra dimensão, pois nós somos “essencialmente” seres híbridos, formados pelo diálogo e violência entre diferentes raças. Se existir, algum dia, algo para unir socialmente o Brasil, isto será a nossa impureza cultural. Então, agir de maneira híbrida, não é uma questão de opção estética, de tendência, de momento histórico, mas é uma questão de referencial, que nós carregamos internamente, que foi gerado em nossa formação cultural. Então o purismo artístico, tais como o sujeito essencialmente “pintor”, o essencialmente “fotógrafo”, o “cineasta”, o “escultor”, por mais importantes que sejam em suas pesquisas criativas, existirá sempre em cada um deles uma persona deslocada, inquieta e com impulsos para perverter o seu oficio, sua arte, o suporte e a própria pesquisa iniciada. O caos, a fluidez, a desorganização, a fragmentação tem pontos positivos e negativos, portanto, não nos faz melhores, mas nos proporciona uma identidade, que é frágil, escorregadiça e muitas vezes, sabotadora de nós mesmos.

4. Como você define sua atuação nas artes visuais?

Em João Pessoa eu tenho a clara impressão de que minha atuação é de convergência. Boa parte do que faço são resultados de colaboração com outros artistas, às vezes, apropriações, outras vezes, edições ou produto de diálogos. De maneira que a intenção criativa já nasce em tensão.

5. Você acha que há espaço/lugar/apoio para os jovens artistas?

João Pessoa possui divisões sociais estanques desde a época em que a população se deslocou do centro para a praia. A população se dividiu de uma maneira que blocos de pessoas não interagem em nosso meio cultural, impedindo interpenetrações, hibridismos sociais que gerou um congelamento da cultura popular (estamos parado no armorialismo de Ariano, via Recife) e também das artes de pesquisa (ficamos na semana de arte de 22). A consequência disso é que a arte contemporânea ficou em um lugar não demarcado socialmente. Não tem visibilidade. O público é o mesmo já há algum tempo e não existe política pública que faça mudar a falta de interesse pela produção local, como museus de arte contemporânea ou galerias que possam dar conta desta produção. Infelizmente, são os próprios artistas locais os “zeladores”, detentores históricos das obras de artes visuais dos anos 1990 e 2000. Pois como se sabe, nos anos 1980 em João Pessoa imperou a pintura. Eu mesmo tento adquirir trabalhos de novos artistas com esta intenção de guardar a memória artística dos anos de 90 a 2000

6. Que artistas ou movimentos te dão mais influências ou te agradam mais?

Como venho das Letras, sou muito influenciado pelos poetas e escritores que trabalham a materialidade visual do texto escrito. Pierre Verger, Caribé, Arnaldo Antunes, Augusto de Campos, Décio Pignatari, J. Borges. Também me envolvi com pensadores da cultura brasileira como Gilberto Freire, Darcy Ribeiro e Sérgio Buarque de Holanda graças à minha orientadora, Beliza Áurea. Contudo, a obra de cabeceira é o Cerco da memória do poeta Sérgio de Castro Pinto. “Vira e mexe” estou relendo esta coletânea. Nas artes visuais gosto de Cildo Meirelles, dos construtivistas russos, do dadaísmo e da arte conceitual dos anos sessenta e setenta, dos happenings, da Land Art, do Fluxus etc. Estou começando a me interessar pela Pop Art americana, muito embora esteja certo que o Brasil produziu coisas melhores no mesmo período. Na Paraíba, eu gosto de Gonper, Marta Penner, Rufino, Íris Helena, Américo, Manoel Fernandes, Adriano Barreto, Cristina Carvalho, Dani Calaço, Danielle Travassos, Prince, Verdeee, Chico Dantas, Dyógenes, Vagner e Serge Huot.

sábado, janeiro 14, 2012

(in)feliz ano novo?

Há 30 anos, na minha adolescência, o carnaval era tempo de sair da cidade em busca de aventuras... Praias de Jacumã, Baía da Traição, Canoa Quebrada e até Olinda e Salvador eram as melhores alternativas para jovens como eu que ainda sonhavam com “sexo, drogas e rock’n’roll” e que não tinham o que fazer em João Pessoa, onde carnaval era sinônimo de mela-mela nos bairros, desfile das pobres agremiações carnavalescas e os bailes dos clubes Astréa (Azul e branco), Cabo Branco (Vermelho e branco), Jangada (Verde e branco) e Iate (Noite do Havaí).

Foi assim, com essa febre de sair da cidade na época do carnaval, que nasceu o Bloco Muriçocas do Miramar e, junto com ele, o projeto Folia de Rua. Daí inventou-se o carnaval do “antes do carnaval”. E, então, todo mundo continuou “fugindo” do carnaval de João Pessoa, embora tivesse lá seu charme poder brincar um carnaval diferente, mais popular, indo “atrás do trio elétrico”, literalmente. Destaque para o fato de que, nessa época, as pessoas daqui (e de Campina Grande, especialmente) costumavam “veranear” (férias de verão) alugando casas na faixa que vai do Mar dos Macacos (hoje, o bairro de Intermares) até Praia Formosa, em Cabedelo. Sempre tínhamos a casa de um amigo pra visitar durante o período de veraneio e nestas visitas e festinhas nasceram muitos “namoros de verão”.

Tempos depois, um famigerado prefeito de João Pessoa inventou de trazer o Axé Music – que explodia no país inteiro – para “alegrar” os jovens (eu, já nem tanto assim) em eventos carnavalescos que tinham o prefixo “mica” (que tem origem na festa francesa, mi-carême, ou seja, que ocorre no meio da quaresma). Espalhou-se no Brasil, a partir de Feira de Santana e de outras cidades nordestinas, esse tipo de carnaval “fora de época”: Micareta, Micarande, Micaroa, Carnatal, Fortal... Isso só fez encher de grana os protagonistas desse tipo de música baiana (há outros baianos, ainda bem) e as empresas de cerveja (então, seus principais patrocinadores).

Outros tempos depois, outro prefeito, muito mais envolvido com os movimentos populares e artísticos, resolve abolir com essa baboseira das “micas”. Não só investiu na música local como também passou a trazer para a cidade nomes de “peso” da boa música brasileira. Ou seja, no verão e no carnaval teríamos, finalmente, motivos para não deixar a cidade. Todos ficamos deslumbrados. Além do nosso bom pré-carnaval – seguindo as Muriçocas, as Virgens de Tambaú e os Cafuçus, especialmente – poderíamos curtir os numerosos festivais de verão: Centro em Cena, Estação Nordeste, Estação do Som, Música do Mundo, Festival Canavial... E tudo já começava no Réveillon.

Não tenho dúvidas de que João Pessoa, entre as capitais nordestinas, é a que apresenta a melhor programação de música no período das férias de verão, em 2012. Somando recursos da Prefeitura e do Estado, foi investido cerca de 1 milhão de reais para pagamento de cachês, passagens, hospedagem e aluguel de palco, luz e som.

No entanto, também há divergências e discrepâncias. Vejamos algumas questões que merecem reflexão de todos (até daqueles que estão abestalhados com tanta coisa boa acontecendo na cidade).

1. Apesar do grande volume de recursos financeiros pros músicos, quem leva a maior fatia são aqueles que vem de “fora”. É uma vergonha o cachê dos grupos e artistas locais que se apresentam nas praças, principalmente;

2. Não incluíram a “prata da casa” – da música – na programação principal (nas areias de Tambaú);

3. Proporcional ao que foi investido (financeiramente também), não incluíram nenhuma “boa” programação em áreas como literatura, dança, teatro, cinema e artes visuais. Vale dizer que uma coisinha aqui e outra ali é apenas querer tampar o sol com uma peneira.

Claro que numa programação cultural de verão, mais voltada para eventos de rua, é complicado organizar atividades afeitas para locais fechados (cinema, teatro, dança e artes visuais, em especial). No entanto, falta mesmo é “cabeça pensante” no poder oficial que “crie” projetos nestas outras áreas da cultura. Por exemplo, com o mesmo investimento de trazer um Frejat ou um Antonio Nóbrega, poderíamos convidar um grande grupo de dança (ou de teatro) para várias apresentações gratuitas. Ou organizar exibições de cinema ao ar livre. Ou levar a Orquestra Sinfônica para a praia...

Na área de artes visuais também há muitas opções. Parece até que nossos dirigentes nunca ouviram falar de Street Art, de ações de arte pública com artistas realizando intervenções urbanas, mutirões de grafite, esculturas efêmeras ao ar livre, oficinas de artes para crianças (afinal, estamos de férias), concurso de escultura de areia, mostras em placas de outdoor espalhadas pela cidade... Pelo visto, aqui não falta dinheiro pra música no verão, apesar de faltar dinheiro o ano inteiro para outras categorias artísticas, inclusive para o nosso bom pré-carnaval.

Vou ficando por aqui. Daqui a pouco vou buscar minha filha que está se divertindo com as amiguinhas na Praia de Tambaú (muito diferente de Luiza, que está no Canadá, infelizmente).