textos sobre artistas e artes visuais publicados em jornais, revistas, livros e catálogos
quinta-feira, janeiro 30, 2014
a arte surge assim, na rede (arte contemporânea)
segunda-feira, janeiro 06, 2014
haja fôlego!, de chico ferreira
quarta-feira, novembro 13, 2013
único, autêntico, sofisticado. tudo junto, de alberto lacet
Aliás, como muitos outros já afirmaram o mesmo com propriedade, vou me policiar para não gastar palavras com elogios baratos ou palavras ao vento...
Eu lembro bem daqueles nossos encontros iniciais no ateliê de serigrafia do mestre Alcides Ferreira, ali na ruazinha do Riachuelo, entre a B. Roahn e a Maciel Pinheiro. Era início da década de 80 e tempos de boa conversa e deliciosas discussões sobre arte, história da arte e também histórias de trancoso, claro. Desde então passei a reverenciar sua arte (e seu largo conhecimento sobre arte e técnica, diga-se), seu método refinado. Virei fã incondicional.
O tempo (ah, o tempo...) cuidou de fazê-lo ainda mais refinado. Como é do estilo dos autênticos, Alberto Lacet obra lentamente a sua cria, como que lambendo, limpando, tirando os excessos (e há excessos em Lacet?). E, talvez por isso mesmo todos ficamos ansiosos por ver uma mostra individual sua. Confesso até, daria tudo para assistir ao embate de Lacet com uma tela em branco... Seria um embate digno de deuses, não?
E como Lacet não parece ser deste mundo dos “simples mortais”, cito o dilema de Sísifo que, por desafiar os deuses, foi condenado a carregar uma pedra até o topo de uma montanha. Quando já estava próximo do objetivo, a pedra rolava montanha abaixo e ele começava tudo de novo. E assim tinha de cumprir, eternamente, essa tarefa sem sentido... Ora, isto nada tem a ver com Lacet (exceto a labuta interminável), mas serve como link para o “absurdo” da arte, do gesto criador, que outro Alberto, o Camus, desenvolveu num ensaio, O mito de Sísifo, em que desanda a discutir a “criação do absurdo” e onde afirma, categórico: “Se o mundo fosse claro, a arte não existiria.” E aí, suas palavras-chave “revolta, liberdade, paixão” para a aceitação do absurdo e/ou a compreensão da vida são aquilo que me faz lembrar a obra (e a função) de Alberto Lacet neste momento.
sexta-feira, março 29, 2013
memórias do olhar, de raul córdula
quinta-feira, dezembro 20, 2012
josé lyra - o pintor da parahyba
quinta-feira, novembro 29, 2012
em cartaz (grupo DIA em exposição na aliança francesa joão pessoa)
conversa com o grupo DIA
quinta-feira, setembro 13, 2012
um eu, outro eu. eu coletivo
conversa com cláudio foca (em exposição na aliança francesa)
terça-feira, junho 12, 2012
homem/paisagem/visagem
quarta-feira, abril 18, 2012
muito prazer! (para talita paz, em exposição na aliança francesa joão pessoa)
E isto é muito apropriado à jovem artista Talita Paz. No meu primeiro contato com ela (quando colaborou com a exposição de Daniele Calaço, na Aliança Francesa, em 2009), ainda não sabia de suas múltiplas “habilidades”: da fotografia à dança de salão (e do ventre!), da poesia ao canto coral. Até aí nada demais para alguém jovem e plena de desejos pela arte, já que, na época, ela também frequentava o curso de artes visuais da UFPB.
Mas notei, ao longo destes anos, que Talita tinha se dedicado muito mais à fotografia: comprou uma câmera profissional e passou a experimentar ensaios lúdicos e cheios de estilo (e criativos) com amigas e clientes (que se tornavam novas amigas). Veio daí meu interesse em convidá-la para o programa Jovens Talentos, da Aliança Francesa. Mas como na vida nada acontece por acaso, desisti de – como seu curador – propor um recorte de sua produção recente, quando a deixei falar do que pensava exibir... E ela não parou de falar de suas ideias, obras, planos, projetos, desejos... Mostrou desenhos, anotações e croquis... Até que me convenci de que ela deveria fazer uma “retrospectiva” de sua produção!
Então, nesse caso, eu devia deixá-la “se mostrar”, bem solta, completa, e se apresentar a todos (e a mim também) com suas propostas várias: fotografia, poesia, assemblage, desenho, instalação, dança... Na verdade, um pouco do híbridismo que já lhe marca como artista múltipla, contemporânea (e com “futuro”). Com vocês... Talita Paz!
conversa com talita paz
1. Como se deu sua ‘descoberta’ pela arte? Foi fascinação ou desígnio?
Minha mãe fazia Educação Artística na UFPB e ela sempre me levava pra assistir as aulas. Eu era a “mascote”, a cantora mirim nas aulas de música, a atriz nas aulas de teatro e a modelo das aulas de desenho. E ficava desenhando os colegas de turma da minha mãe... Sempre tive materiais artísticos em minha volta e experimentava tudo sem restrições, amava tudo aquilo e suas possibilidades criativas. Assim, além de “designada” eu era (e ainda sou/estou) fascinada por arte e todas suas vertentes (e estou imersa nela até hoje).
2. De que forma vc chegou ao curso de artes da UFPB?
Na verdade eu sempre quis fazer fotografia. Ganhei minha primeira câmera com sapata e flash aos sete anos e ainda a tenho (cor: amarelo-limão... rsrs). Mas minha família não tinha condições de bancar meu curso, e o mesmo aconteceu com Arte e Mídia
3. Como você enxerga hoje o hibridismo da/na arte contemporânea?
Acho fundamental. Pois o leque de possibilidades aumenta dando maior poder criativo e liberdade de expressão, ampliando os horizontes, intrigando, desvendando, instigando, tocando o expectador, aguçando os sentidos, pondo-os para parar, observar, refletir, discutir, destrinchar e muitas vezes montar o “quebra-cabeça” que é a vida.
4. Como você define sua atuação nas artes visuais?
Ativa, produtiva, contínua, perspicaz e silenciosa... Pois sempre foi difícil mostrar meu trabalho. Todas as minhas produções são arquivadas, guardadas e poucas pessoas as conhecem, não mostro para todo mundo, apenas para pessoas especiais para mim (algo meio que um ritual de intimidade e confiança). Mas hoje penso diferente, já estou mais madura e confiante, sem receios ou medos de me expor, me revelar, de compartilhar pensamentos, sentimentos, momentos. Hoje me vejo como um livro aberto... Lê quem quer! E agora estou tendo a oportunidade de abrir este livro e compartilhar um pouco do que sou e por onde passei, quem passou por mim e me ajudou a ser de alguma forma a pessoa, artista, dançarina e fotografa que me tornei.
5. Você acha que há espaço/lugar/apoio para os jovens artistas?
Sim, mas poucos. Poucos são os lugares que realmente investem no novo, nos jovens artistas. E, na maioria, quando investem não têm o cuidado de oferecer boa “apresentação” das obras. Falo isso para os “novos artistas”, pois para os já conhecidos a história e as “pompas” são outras... Quem é do meio sabe como funciona, infelizmente. Enfim, é lógico que há exceções, mas são poucas. E isto [investir nos novos], é de extrema importância para todos nós “novos”, pois só assim teremos oportunidade de compartilhar nosso talento, habilidade, criatividade, experimentações. Isso é que é legal: novas propostas, novas possibilidades.
6. Que artistas ou movimentos te dão mais influências ou te agradam mais?
Tive bastante influência de grandes amigos artistas, entre eles: Amenemar, Flávio Tavares, Eliéser Filho, Miguel dos Santos, Cristina Strapação, Florismar Gomes (Flô), Silvino Espínola, Jacqueline Lima, Maximiano Fernandes, Sheilla Fadja, Danielle Calaço, Roncalli Dantas, Américo, Marta Penner, Dyógenes Chaves, Shiko, Eleonora Montenegro, Wilson Figueiredo, Paulo Aurélio, Cácio Murilo, Júlio Fontes, Almir Xavier, Ricardo Peixoto, Edu Costa, David Ribeiro, Roberto Mendonza, Leonardo Aires, Eduardo Vieira, Eugra Souto, Eduardo Moura, entre muitos outros... Quanto a meus estilos preferidos, no que diz respeito a desenho e fotografia, me envolvo muito com pessoas, sua simplicidade, sentimentos, sensualidade e o erotismo, a estima por si mesmo, os conflitos pessoais, o romance e a mistura de tudo, a contemporaneidade.
segunda-feira, março 26, 2012
a serigrafia artística na paraíba
Na Paraíba, como em outros lugares, a técnica da serigrafia (ou silkscreen) surgiu, inicialmente na produção de flâmulas e decalques plásticos destinados à promoção de eventos, e na impressão de rótulos e caixas de papelão para embalagens de produtos (sabão, vela, cigarro, fósforo, sabonete etc.), antes, só possível por meio da impressão em tipografia e litografia.
Já a utilização pioneira da serigrafia nas artes visuais paraibanas, a partir dos anos 1970, é creditada ao serígrafo, Alcides Ferreira, e ao artista plástico, Arthur Cantalice, e este, à época, aprendeu rudimentos da técnica em viagens aos Estados Unidos. O processo então empregado era o de filme de recorte: uma película aplicada sobre uma folha de plástico, com detalhes do desenho cuidadosamente recortados, a partir do que se obtinha uma imagem vazada, ou seja, um “molde vazado” (ou estêncil). Hoje em dia, o processo denominado photoscreen – que utiliza recursos da fotografia – é o mais difundido, comercial e industrialmente.
A partir do curso ministrado pelos serígrafos, Laércio Pereira (SP) e Alcides Ferreira (PB), no Núcleo de Arte Contemporânea (João Pessoa, 1979), quando da exposição do artista, Cláudio Tozzi, e no V Festival de Arte (Areia, 1979), os artistas locais passaram a fazer uso da técnica de photoscreen, com objetivos de multiplicar e dar visibilidade à sua produção gráfica. As gravuras eram editadas no ateliê de Alcides Ferreira – considerado um dos melhores do Nordeste –, de quem o artista e serígrafo, Dyógenes Chaves, foi seu principal assistente entre 1982-86. Das obras então produzidas, destaque para os álbuns de serigrafia de artistas como Guy Joseph, Raul Córdula, Flávio Tavares, Fred Svendsen e Chico Dantas, dentre outros.
Muito antes disso, nos anos 60, o artista norte-americano, Andy Warhol, já se utilizava da serigrafia – técnica de impressão gráfica, até então apenas utilizada na produção industrial, têxtil e publicitária –, como meio principal para a realização de suas obras, no auge do movimento Pop Art.
Inventada pelos japoneses há dois mil anos, a serigrafia deriva da técnica do estêncil, muito empregada na estampagem artesanal de tecidos. Esta técnica − ainda hoje usada na marcação de embalagens − consiste em recortar, de uma folha de papel, a imagem ali existente, que resulta vazada. Em seguida, passou-se a usar um tecido de trama e fios finos e regulares, tensionado em uma moldura de madeira. Neste caso, obtém-se a impressão com a utilização de um rodo de borracha, para “puxar” a tinta ao longo da superfície da matriz (moldura, tecido e estêncil), colocada sobre o suporte (papel) em que se quer imprimir a imagem.
Em resumo: a diferença entre as diversas técnicas de gravura e a serigrafia está na forma de impressão, ou seja, na serigrafia a imagem é obtida pela ação do rodo, que viabiliza a passagem da tinta através do tecido da matriz, nas demais técnicas a imagem é obtida por intermédio direto da matriz, que é entintada para posterior transferência ao papel (tal qual um carimbo).
Hoje em dia, a serigrafia é amplamente utilizada por artistas plásticos na “multiplicação” de suas obras – quase sempre destinadas à decoração de interior em hotéis, hospitais etc., que demandam várias cópias da mesma matriz –, sem perder sua originalidade (a gravura, apesar de reproduzida em série, mantém-se original, já que é assinada e numerada, uma a uma, pelo autor) e a um custo mais acessível ao mercado de arte. O único senão é o fato da gravura em serigrafia ser totalmente manipulada por um técnico impressor e não pelo próprio artista – como se dá nas outras técnicas –, o que resulta em menor envolvimento do artista-autor com sua criação.
Entre 2010 e
sexta-feira, março 02, 2012
para roncalli dantas (em exposição na aliança francesa joão pessoa)
1. O mundo dá voltas. A cada volta tantos encontros (e desencontros). Até as pedras se encontram. A isso dá-se o nome de “entre”.
2. E é aí – na ida, na volta, no “entre” – que o artista, Roncalli Dantas, recolhe as mais recônditas imagens-palavras para produzir sua obra-vida. E, a cada volta que o mundo dá ele divide aquilo que recolhe com quem encontra: parceiros, amigos e anônimos. A isso dá-se o nome de “generosidade”.
Pudera. Colaborar, dividir, somar, apropriar, tomar emprestado, dar, doar, receber não são para qualquer um. Mas para Roncalli, são sim.
3. Sua obra, multifacetada e híbrida, verbo ou figura, velha ou nova, é o melhor exemplo de sua geração. A isso dá-se o nome de “o nosso mais completo artista contemporâneo”.
Pudera. Fotografia, desenho, livro de artista, poema, vídeo, objeto, não são para qualquer um. Mas para Roncalli, são sim.
4. Se pudéssemos nomeá-lo (como artista ou não), ele seria a pedra que gostaríamos de encontrar no meio do caminho. A cada volta que o mundo dá.
conversa com roncalli dantas
1. Como se deu sua ‘descoberta’ pela arte? Foi fascinação ou desígnio?
Nos últimos anos da década de 90 comecei a acompanhar o pessoal da Agência Ensaio [de fotografia], participando de exposições em varais nas ruas, de workshops nas feiras de arte e no SESC, que ocorriam anualmente
2. De que forma você chegou ao curso de artes da UFPB?
Eu “cheguei” no curso de artes em agosto de 2005 por causa dos artistas, Cristina Carvalho e Adriano Barreto. Eles foram meus primeiros colegas de um “curso de artes” que jamais fiz formalmente. Foi um curso de segunda mão, pois eles assistiam as aulas e depois eu captava resquícios dos debates, das sobras das discussões mais importantes para eles. Eu acabei criando imagens dos professores de arte da UFPB – Silvino Espínola, Chico Pereira, Ricardo Dubinskas, Sicília Calado, Rosilda Sá, Erinaldo Alves – a partir das conversas com os meninos, que se misturavam com Duchamp, Polock, Man Ray, Einsenstein. Depois, começando a expor com Cris e Adriano, a professora Rosilda me chamou para falar sobre um trabalho de livro de artista que eu tinha realizado através de um curso no Casarão 34, que na época tinha Maria Botelho, Dyógenes Chaves e Rodolfo Athayde na coordenação. No final de 2006 fui para São Paulo fotografar as obras da bienal e das galerias com o objetivo de abrir um grupo de discussão no Núcleo de Arte Contemporânea, num projeto de pesquisa encabeçado pela professora, Paula Ziegler, que me apresentou à coordenadora do NAC, a professora Marta Penner. No ano seguinte, posei como modelo vivo para uma turma de desenho de Marta e logo após, acabei colaborando com alguns trabalhos realizados por ela e participando de grupos de estudos e grupos de pesquisa na área de ensino de artes com os professores Sicília Calado e Erinaldo. Portanto, me considero também cria do cenário artístico fomentado pela UFPB a partir da chegada dos professores Marta, Sicília, Marco Aurélio e Dubinskas, em 2006.
3. Como você enxerga hoje o hibridismo da/na arte contemporânea?
Atualmente existe uma valorização de questões sobre desterritorialização, entre-lugar, hibridismo, diálogos culturais, rizomas, fragmentação, fluidez, diluição etc. Todas estas questões filosóficas são importantes, mas quando temos como parâmetro o Brasil, estas questões ganham outra dimensão, pois nós somos “essencialmente” seres híbridos, formados pelo diálogo e violência entre diferentes raças. Se existir, algum dia, algo para unir socialmente o Brasil, isto será a nossa impureza cultural. Então, agir de maneira híbrida, não é uma questão de opção estética, de tendência, de momento histórico, mas é uma questão de referencial, que nós carregamos internamente, que foi gerado em nossa formação cultural. Então o purismo artístico, tais como o sujeito essencialmente “pintor”, o essencialmente “fotógrafo”, o “cineasta”, o “escultor”, por mais importantes que sejam em suas pesquisas criativas, existirá sempre em cada um deles uma persona deslocada, inquieta e com impulsos para perverter o seu oficio, sua arte, o suporte e a própria pesquisa iniciada. O caos, a fluidez, a desorganização, a fragmentação tem pontos positivos e negativos, portanto, não nos faz melhores, mas nos proporciona uma identidade, que é frágil, escorregadiça e muitas vezes, sabotadora de nós mesmos.
4. Como você define sua atuação nas artes visuais?
5. Você acha que há espaço/lugar/apoio para os jovens artistas?
João Pessoa possui divisões sociais estanques desde a época em que a população se deslocou do centro para a praia. A população se dividiu de uma maneira que blocos de pessoas não interagem em nosso meio cultural, impedindo interpenetrações, hibridismos sociais que gerou um congelamento da cultura popular (estamos parado no armorialismo de Ariano, via Recife) e também das artes de pesquisa (ficamos na semana de arte de 22). A consequência disso é que a arte contemporânea ficou em um lugar não demarcado socialmente. Não tem visibilidade. O público é o mesmo já há algum tempo e não existe política pública que faça mudar a falta de interesse pela produção local, como museus de arte contemporânea ou galerias que possam dar conta desta produção. Infelizmente, são os próprios artistas locais os “zeladores”, detentores históricos das obras de artes visuais dos anos 1990 e 2000. Pois como se sabe, nos anos 1980
6. Que artistas ou movimentos te dão mais influências ou te agradam mais?
Como venho das Letras, sou muito influenciado pelos poetas e escritores que trabalham a materialidade visual do texto escrito. Pierre Verger, Caribé, Arnaldo Antunes, Augusto de Campos, Décio Pignatari, J. Borges. Também me envolvi com pensadores da cultura brasileira como Gilberto Freire, Darcy Ribeiro e Sérgio Buarque de Holanda graças à minha orientadora, Beliza Áurea. Contudo, a obra de cabeceira é o Cerco da memória do poeta Sérgio de Castro Pinto. “Vira e mexe” estou relendo esta coletânea. Nas artes visuais gosto de Cildo Meirelles, dos construtivistas russos, do dadaísmo e da arte conceitual dos anos sessenta e setenta, dos happenings, da Land Art, do Fluxus etc. Estou começando a me interessar pela Pop Art americana, muito embora esteja certo que o Brasil produziu coisas melhores no mesmo período. Na Paraíba, eu gosto de Gonper, Marta Penner, Rufino, Íris Helena, Américo, Manoel Fernandes, Adriano Barreto, Cristina Carvalho, Dani Calaço, Danielle Travassos, Prince, Verdeee, Chico Dantas, Dyógenes, Vagner e Serge Huot.
sábado, janeiro 14, 2012
(in)feliz ano novo?
Há 30 anos, na minha adolescência, o carnaval era tempo de sair da cidade em busca de aventuras... Praias de Jacumã, Baía da Traição, Canoa Quebrada e até Olinda e Salvador eram as melhores alternativas para jovens como eu que ainda sonhavam com “sexo, drogas e rock’n’roll” e que não tinham o que fazer
Foi assim, com essa febre de sair da cidade na época do carnaval, que nasceu o Bloco Muriçocas do Miramar e, junto com ele, o projeto Folia de Rua. Daí inventou-se o carnaval do “antes do carnaval”. E, então, todo mundo continuou “fugindo” do carnaval de João Pessoa, embora tivesse lá seu charme poder brincar um carnaval diferente, mais popular, indo “atrás do trio elétrico”, literalmente. Destaque para o fato de que, nessa época, as pessoas daqui (e de Campina Grande, especialmente) costumavam “veranear” (férias de verão) alugando casas na faixa que vai do Mar dos Macacos (hoje, o bairro de Intermares) até Praia Formosa,
Tempos depois, um famigerado prefeito de João Pessoa inventou de trazer o Axé Music – que explodia no país inteiro – para “alegrar” os jovens (eu, já nem tanto assim) em eventos carnavalescos que tinham o prefixo “mica” (que tem origem na festa francesa, mi-carême, ou seja, que ocorre no meio da quaresma). Espalhou-se no Brasil, a partir de Feira de Santana e de outras cidades nordestinas, esse tipo de carnaval “fora de época”: Micareta, Micarande, Micaroa, Carnatal, Fortal... Isso só fez encher de grana os protagonistas desse tipo de música baiana (há outros baianos, ainda bem) e as empresas de cerveja (então, seus principais patrocinadores).
Outros tempos depois, outro prefeito, muito mais envolvido com os movimentos populares e artísticos, resolve abolir com essa baboseira das “micas”. Não só investiu na música local como também passou a trazer para a cidade nomes de “peso” da boa música brasileira. Ou seja, no verão e no carnaval teríamos, finalmente, motivos para não deixar a cidade. Todos ficamos deslumbrados. Além do nosso bom pré-carnaval – seguindo as Muriçocas, as Virgens de Tambaú e os Cafuçus, especialmente – poderíamos curtir os numerosos festivais de verão: Centro em Cena, Estação Nordeste, Estação do Som, Música do Mundo, Festival Canavial... E tudo já começava no Réveillon.
Não tenho dúvidas de que João Pessoa, entre as capitais nordestinas, é a que apresenta a melhor programação de música no período das férias de verão, em 2012. Somando recursos da Prefeitura e do Estado, foi investido cerca de 1 milhão de reais para pagamento de cachês, passagens, hospedagem e aluguel de palco, luz e som.
No entanto, também há divergências e discrepâncias. Vejamos algumas questões que merecem reflexão de todos (até daqueles que estão abestalhados com tanta coisa boa acontecendo na cidade).
1. Apesar do grande volume de recursos financeiros pros músicos, quem leva a maior fatia são aqueles que vem de “fora”. É uma vergonha o cachê dos grupos e artistas locais que se apresentam nas praças, principalmente;
2. Não incluíram a “prata da casa” – da música – na programação principal (nas areias de Tambaú);
3. Proporcional ao que foi investido (financeiramente também), não incluíram nenhuma “boa” programação em áreas como literatura, dança, teatro, cinema e artes visuais. Vale dizer que uma coisinha aqui e outra ali é apenas querer tampar o sol com uma peneira.
Claro que numa programação cultural de verão, mais voltada para eventos de rua, é complicado organizar atividades afeitas para locais fechados (cinema, teatro, dança e artes visuais, em especial). No entanto, falta mesmo é “cabeça pensante” no poder oficial que “crie” projetos nestas outras áreas da cultura. Por exemplo, com o mesmo investimento de trazer um Frejat ou um Antonio Nóbrega, poderíamos convidar um grande grupo de dança (ou de teatro) para várias apresentações gratuitas. Ou organizar exibições de cinema ao ar livre. Ou levar a Orquestra Sinfônica para a praia...
Na área de artes visuais também há muitas opções. Parece até que nossos dirigentes nunca ouviram falar de Street Art, de ações de arte pública com artistas realizando intervenções urbanas, mutirões de grafite, esculturas efêmeras ao ar livre, oficinas de artes para crianças (afinal, estamos de férias), concurso de escultura de areia, mostras em placas de outdoor espalhadas pela cidade... Pelo visto, aqui não falta dinheiro pra música no verão, apesar de faltar dinheiro o ano inteiro para outras categorias artísticas, inclusive para o nosso bom pré-carnaval.
Vou ficando por aqui. Daqui a pouco vou buscar minha filha que está se divertindo com as amiguinhas na Praia de Tambaú (muito diferente de Luiza, que está no Canadá, infelizmente).
sábado, dezembro 31, 2011
infeliz ano velho
Como acontece a cada final de ano, as pessoas geralmente fazem uma “retrospectiva” de sua vida pessoal e daquilo que ocorreu noutras searas – cultura, política, economia etc. – e que, óbvio, também diz respeito à sua vida. No entanto, fazer um balanço do que aconteceu em apenas um ano serve mais para ensaiar um jogo de memória (lembrar pessoas, datas e acontecimentos, por exemplo) do que para refletir judiciosamente sobre cada momento vivido.
Como em toda e qualquer análise essa “retrospectiva” terá a cara daquele que a realizou, com seus pontos de vista, versões e/ou opiniões próprias. E é este o caso. Pode haver discordâncias ou concordâncias, dependendo do lado que o leitor esteja.
Nas artes plásticas (minha principal área de atuação), posso dizer que tivemos um ano pífio (aqui em João Pessoa, Paraíba, especialmente), apesar dos pesares. Vejamos:
No âmbito federal, o Ministério da Cultura ainda não disse a que veio. O ano começou com polêmicas no planejamento do evento Europália (previsto para acontecer na Bélgica, em outubro) e com atrasos (além da falta de informações) na análise de dezenas de editais, ambos, assuntos “criados” ainda na era Juca Ferreira (no MinC), portanto, problemas oriundos de outro “governo” (a segunda gestão de Lula). A nova ministra, Ana Buarque de Hollanda, ainda hoje bastante questionada por diversos setores da sociedade civil, iniciou seu mandato retirando a logomarca do Creative Commons do portal do MinC, o que provocou acalorada discussão sobre direito autoral na área artística. Apenas no finalzinho do ano é que surgiram boas notícias: retomada da discussão em torno dos editais atrasados; lançamento de novos editais e das metas do Plano Nacional de Cultura, esta, certamente, a mais importante ação do governo federal na área da cultura. São metas e linhas de ação que servirão de orientação aos estados e municípios brasileiros.
Já, em nível estadual e municipal, as artes plásticas andaram para trás. No estado, nada se fez em prol de ações de formação (de platéia e de artistas), de produção e de circulação. Nada. Lamentável que estamos falando do governo de Ricardo Coutinho que, anos atrás, foi o principal articulador da lei de incentivo à cultura (a Lei Viva Cultura, do município de João Pessoa). Neste ano foi extinto o Conselho Estadual de Cultura (por serem membros "indicados" pelo poder oficial, nem tinha lá tanta importância, mas foi "riscado" do mapa) e pago, finalmente, o restante das parcelas do Fundo de Incentivo à Cultura Augusto dos Anjos (lançado ainda no governo Cássio). Só. Também, devo registrar que o Festival Nacional de Arte foi cancelado (por que parou? parou por que?) e nada foi feito de concreto para a instalação do Museu de Arte Contemporânea da Paraíba.
No município de João Pessoa a coisa foi bem pior (se é que pode ser assim tão ruim). Apesar da manutenção das ações do Fundo Municipal de Cultura e do edital para oficinas de artes (formação e capacitação) em várias localidades da periferia da cidade, nada foi acrescentado que pudesse estar à altura da nossa produção em artes visuais. O Salão Municipal de Artes Plásticas [Samap], que mesmo executado totalmente com verba da Funarte (edital Festivais de Fotografia, Performances e Salões Regionais, na categoria Artes Visuais 2010), ainda não produziu seu catálogo como também não honrou, satisfatoriamente, outros compromissos: do não pagamento de cachê a um dos membros da comissão de seleção e premiação até o atraso, injustificado, do repasse de prêmios e pro labore a alguns dos artistas selecionados e o adiamento, por diversas vezes, da realização da mostra da artista, Danielle Travassos, detentora do prêmio de artista revelação do referido Salão. Somente após ampla divulgação nas redes sociais, a Funjope agendou para dezembro a mostra de Danielle na Estação Cabo Branco.
Lamentável é confirmar, mais uma vez, que quase toda a verba (mesmo pouca, diga-se) destinada à cultura pelos governos – do Estado da Paraíba e da Prefeitura de João Pessoa – foi dedicada às ações na área de música e de cultura popular. Para atestar essa informação basta acessar os portais dos órgãos culturais que, graças à Lei Capiberibe (Lei Complementar Federal nº 131/2009, que obriga os poderes nas esferas municipais, estaduais e federal a publicar, em tempo real, na internet, suas receitas e seus gastos), é possível saber, exatamente, os recursos investidos na área cultural.
Nada contra o apoio oficial à cultura popular e à “boa” música, mas não se justifica o “quase nenhum” investimento em artes visuais, literatura, dança etc. De quem é a culpa? Dos mandatários do poder? Dos artistas? Será que precisaremos fazer algum lobby para termos um artista plástico (ou escritor ou poeta ou cineasta, por exemplo) como secretário de cultura? Em tempo: o curto período da gestão do artista plástico, Flávio Tavares, na ainda Subsecretaria de Cultura não foi bastante para fazermos melhor avaliação. Aliás, deveríamos tomar como exemplo a atuação de Gilberto Gil no Ministério da Cultura que, mesmo sendo da área musical, investiu fundamentalmente em todas as tendências, matizes, raízes, etnias e categorias da cultura.
Há expectativas para o(s) próximo(s) ano(s). Somos otimistas, claro. Apesar de tudo, esperamos que os governos ainda nos apresente um programa de fomento às artes através de investimentos na circulação e formação (de platéia, de técnicos e de artistas), na consolidação de mercado (financiamento em condições de competitividade, economia criativa) e na implementação de políticas públicas (inclusão social, patrimônio cultural, editais públicos etc.).
Para finalizar, destaque para dois eventos que merecem aplausos: a exposição iconográfica sobre José Simeão Leal (Usina Cultural Energisa, entre junho e julho) e a mostra, Divortium aquarum, de José Rufino (Usina Cultural Energisa, entre setembro e novembro, inaugurando o Prêmio Energisa de Artes Visuais). Dois artistas e personalidades – por acaso, primos, embora de gerações distintas – que são unanimidade na cultura nacional (isso é coisa rara) e orgulham nossa pobre Paraíba. Sem mais palavras.
sexta-feira, junho 24, 2011
tarda, mas não falha!
O que agora ocorre com Ratko Mladic e Pauline Nyiramasuhuko também vem acontecendo, desde o Holocausto, com tantos outros ditadores, militares e dirigentes políticos que engendraram genocídios e outros crimes contra a humanidade. Ou seja, a justiça tarda, mas não falha. E agora, diante do levante popular no norte da África e no Oriente Médio também podemos esperar, em breve, julgamentos dos ditadores de países como Tunísia, Líbia, Egito, Síria, Iêmem, Bahrein etc.
Aqui no Brasil se diz que temos pouca memória, que logo esquecemos o mal que alguns dirigentes e políticos fizeram (e fazem) ao povo. São características de nossa formação cultural. Somos passivos demais. Temos amnésia para com os déspotas, embora, vez ou outra, haja surtos em tentar fazer justiça e/ou refletir sobre as cicatrizes do passado. Hoje estamos mais atentos.
No entanto, até parece que alguns administradores nunca imaginam que, um dia, serão julgados por seus atos, bons ou não. As pesquisas acadêmicas, hoje em bem maior número, e mesmo quando estão debruçadas sobre questões atuais, sempre partem de exemplos, ações e movimentos do passado. Ora, os fatos antigos sempre vem à tona e servem como instrumento para analisar a história e/ou julgar os bons e os maus.
Exemplo recente é o do ex-reitor da UFPB, Lynaldo Cavalcanti, que hoje é aclamado como aquele que, nos últimos 40 anos, fez a gestão mais progressista jamais vista em uma universidade nordestina. Mesmo ainda não devidamente reconhecido por toda sociedade, o professor Lynaldo instituiu na UFPB um tipo de gestão – especialmente, investindo nos cursos tecnológicos e nas ações de extensão – que atesta sua visão futurista. E atentem que ele dirigiu a universidade em plena ditadura militar...
Atualmente, na Paraíba, é notória a falta de responsabilidade dos nossos governantes quanto à aplicação de uma política cultural que responda, satisfatoriamente, ao desejo de tratar cultura como política de estado. Por desconhecerem o assunto, os governantes (a maioria jamais “frequentou” teatros, cinemas ou museus e são incapazes de trocar meia dúzia de palavras sobre o assunto) nomeiam pessoas sem nenhuma qualificação para dirigir órgãos culturais. Tudo gira em torno de mero arranjo político ou “de comadres”. E, por conseguinte, estas pessoas nomeiam outras que também não são qualificadas para os cargos. Resultado: um chefe despreparado e uma equipe desqualificada. E assim temos um monte de equívocos sendo tratados como “política cultural”. Vejam o primeiro parágrafo da introdução do documento Sistema Nacional de Cultura-SNC (MinC, 2011): “...As políticas para a cultura ainda ocupam posição periférica na agenda da maioria dos governos, além de serem conduzidas de forma pouco profissional. Parte desse problema está na indefinição a respeito do papel do poder público (Estado) na vida cultural.”
Ora, realizar encontros com as várias categorias artísticas e em todas as regiões do Estado é uma redundância desnecessária, talvez, mera ação politiqueira e demagógica. Afinal, desde o primeiro governo Lula, o Ministério da Cultura (além de estados e municípios) já promoveu inúmeros diagnósticos com maciça participação da sociedade civil, em todos os rincões do país. Alguns destes documentos – resultado das I e II Conferência Nacional de Cultura, ocorridas em 2005 e 2010 –, há muito estão disponibilizados no portal do MinC (www.cultura.gov.br), para que municípios e estados os tomem como referência na construção de suas políticas públicas. Há, inclusive, um Guia de Orientações para os Municípios – Perguntas e respostas, produzido pelo MinC em maio último.
O atraso na área cultural e a desmontagem dos órgãos oficiais provocados por dirigentes irresponsáveis serão, inexoravelmente, algum dia, relatados por pesquisas acadêmicas e estatísticas, e também amplamente divulgados. Foi assim quando o ex-presidente Collor desmobilizou órgãos vitais como a Funarte e a Embrafilme, por exemplo, provocando estagnação e atraso no setor cultural. Somente anos depois, já na primeira gestão do governo Lula, é que a cultura retomou sua importância, sua recuperação e é, atualmente, de fato, um projeto “federal”, que abarca todas as regiões, etnias, minorias e áreas artísticas. Hoje, todo o setor cultural do país tem a exata dimensão da destruição provocada pelo ex-caçador de marajás (isso até virou piada). Também, deve-se levar em consideração a força e importância, nos dias de hoje, das redes sociais que agem seja na mobilização popular ou na divulgação de denúncias, desmandos e outros crimes. Vejam o exemplo do que vem ocorrendo na Tunísia, Egito, Líbia, Iêmen, Bahrein, China, Coréia do Norte, Argélia, Marrocos...
Claro que as comparações – crimes contra a humanidade e má gestão pública – acima citadas até podem ter certo exagero, mas, creiam, é impossível mensurar os males provocados por ambos os crimes. Portanto, preparem-se senhores dirigentes e políticos: a história não falhará. Até por que, na época da barbárie da Segunda Guerra, ninguém também imaginaria que os monstros nazistas fossem, um dia, julgados e condenados por seus atos...